CEARÁ — Madalena, interpretada por Noá Bonoba, está grávida e se prepara para produzir uma ficção científica de baixo orçamento concebida por seu pai, morto recentemente. O início das filmagens está previsto para poucas semanas antes do parto, enquanto ela tenta manter de pé uma produção marcada por imprevistos.
Dirigido por Guto Parente, “Morte e Vida Madalena” acompanha a equipe desde a pré-produção até a gravação do plano final, em meio à chuva, à falta de dinheiro e ao desaparecimento do diretor, ex-marido da protagonista. O recurso obtido por lei de incentivo ainda não chegou quando o trabalho precisa começar.
O filme estreou no Festival de Documentário de Marselha e entrou em cartaz na França. A obra também se apresenta como uma homenagem ao cinema feito em grupo. Parente e outros integrantes da equipe participaram do coletivo Alumbramento, de Fortaleza, responsável por uma série de filmes nos anos 2000 e 2010.
A narrativa alterna humor, drama, espera e diálogos rápidos para expor as incertezas do cinema independente no Brasil. O longa acompanha as funções de diferentes profissionais do set, incluindo a assistente de direção e o responsável pelo som, que ameaça fazer greve por falta de pagamento. Em uma das cenas, Madalena afirma: “Só se eu vender meu filho”.
A fotografia de Ivo Lopes Araújo alterna planos abertos e closes, combinando a dimensão do cenário com os problemas cotidianos da filmagem. O elenco é formado por pessoas queer, sem que essa característica seja transformada em tema explícito.
No centro do filme está a atuação de Noá Bonoba. A atriz interpreta o descontrole da produtora diante do caos e transita entre a voz grave e a ternura, sustentando uma obra que associa declaração de amor ao cinema e revolta com as condições de sua realização.


