São Paulo, Terça-feira, 22 de setembro de 2026
Dólar R$ 5,11 · Euro R$ 5,86 · Ibovespa 186.596 -0,00%
Notícia com critério
Saúde

Perícia cruza lesões e sinais vitais para explicar mortes em quedas de aeronaves

Acidentes podem causar mortes antes do impacto, no choque ou nas horas seguintes, por fogo, falta de oxigênio, traumas e demora no resgate.

Perícia cruza lesões e sinais vitais para explicar mortes em quedas de aeronaves
Foto: Divulgação Bombeiros de SC

A investigação sobre a queda de um helicóptero que matou o cantor Rick, da dupla com Renner, e outros quatro ocupantes deverá combinar exames nos corpos com a análise da área do acidente. O objetivo é identificar a sequência das lesões e verificar se houve sinais de que as vítimas estavam vivas quando foram atingidas por fogo, fumaça ou pelo impacto.

Os corpos foram resgatados nesta terça-feira (22), em uma região de mata de difícil acesso na Serra Catarinense. O helicóptero havia desaparecido na tarde de segunda (21), durante o trajeto entre Porto Belo, no litoral norte, e São Joaquim, na Serra. Depois do resgate, os corpos foram levados ao Instituto Médico Legal de Florianópolis para exames periciais.

O que pode ocorrer antes da queda

O politraumatismo, conjunto de lesões graves provocado pelo impacto, é a causa mais frequente de morte em acidentes aéreos. Mas o fogo, a fumaça e a falta de oxigênio também podem matar ou incapacitar os ocupantes antes de a aeronave atingir o solo.

Incêndios a bordo podem começar por falhas elétricas, superaquecimento de componentes do motor ou vazamento de combustível sobre superfícies quentes. A fumaça pode conter monóxido de carbono, cianeto e gases irritantes. O monóxido de carbono impede que o sangue transporte oxigênio; os demais gases podem inflamar e obstruir as vias respiratórias. Com isso, a vítima pode morrer por asfixia, intoxicação ou queimaduras.

Em aviões comerciais que operam em altitudes muito elevadas, outro risco é a despressurização. A ruptura da cabine ou a falha do sistema que mantém a pressão interna pode provocar hipóxia, que é a falta de oxigênio no organismo. A despressurização rápida não costuma causar morte instantânea, mas pode comprometer o julgamento, retirar a capacidade de agir e levar à inconsciência. “Seu principal efeito é a deterioração do julgamento, perda da capacidade de agir e, posteriormente, inconsciência”, afirma o médico legista Osvaldo Sérgio Ortega.

Lesões produzidas pelo choque

A gravidade dos ferimentos depende da velocidade, do ângulo da queda e do grau de deformação da estrutura da aeronave. O traumatismo craniano pode ocorrer quando a cabeça atinge painéis, poltronas ou partes da própria aeronave.

A desaceleração brusca também pode romper vasos e órgãos mesmo sem uma pancada direta. Quando a aeronave para repentinamente, o corpo é contido, mas os órgãos internos continuam avançando por inércia. Esse movimento pode romper a aorta, o fígado, o baço e os rins, segundo Pedro Ferreira, cirurgião do trauma do Centro de Trauma do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Riscos depois do impacto

Sobreviver ao choque inicial não elimina o risco de morte. Uma hemorragia interna contínua pode provocar choque hipovolêmico, colapso da circulação causado pela perda de volume no organismo. Lesões no tórax podem evoluir para pneumotórax hipertensivo, quando o ar se acumula sob pressão ao redor do pulmão, comprime o órgão e prejudica a respiração e os batimentos cardíacos.

Vítimas inconscientes também podem aspirar sangue ou vômito. Queimaduras graves e a inalação de fumaça são outros riscos. Em acidentes na água, o afogamento pode ocorrer quando a pessoa não consegue soltar os cintos, está desorientada pelo impacto ou sofreu fraturas que impedem a saída da aeronave. Em águas geladas ou locais frios, a hipotermia pode reduzir a temperatura corporal e levar à parada cardíaca.

Quando não há ferimentos imediatamente fatais, a sobrevivência passa a depender do tempo. A rapidez do resgate, a presença de fumaça e as condições das saídas de emergência influenciam a possibilidade de os ocupantes deixarem a aeronave.

Como os peritos reconstituem a sequência

A perícia médica compara os resultados da necropsia com os vestígios encontrados no local. A busca se concentra em sinais vitais, que são reações biológicas capazes de mostrar que o organismo ainda funcionava quando uma lesão ou exposição ocorreu.

Fuligem na traqueia e nos brônquios profundos, por exemplo, indica que a vítima respirava durante um incêndio. A presença de carboxihemoglobina no sangue mostra que o monóxido de carbono foi absorvido enquanto o coração ainda batia.

A ausência desses sinais, porém, não comprova que a morte ocorreu antes do impacto. Uma lesão instantaneamente fatal, como a destruição de centros vitais do cérebro, pode impedir qualquer reação respiratória ou inflamatória.

“Em impactos de altíssima energia, nem sempre é possível reconstituir a sequência exata dos eventos”, afirma Ferreira. Posturas assumidas por corpos carbonizados depois da morte também não são, por si só, prova de vida durante o incêndio.

Texto produzido pela Redação Caderno Atual com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

Entre na nossa newsletterO melhor da semana, sem spam.