A repetição de situações racistas pode manter pessoas negras expostas a efeitos associados ao estresse pós-traumático, afirma o psicólogo e psicanalista Lucas Veiga. Para ele, a recuperação se torna mais difícil quando a experiência que provoca o trauma continua presente.
Veiga desenvolve essa análise no livro "Clínica do impossível: como pessoas negras podem cuidar da saúde mental em um mundo racista" (Paidós, 2026), reedição ampliada de "Clínica do Impossível: Linhas de Fuga e de Cura", lançado em 2021.
Uma pesquisa do Datafolha de 2024 mostrou que 56% dos brasileiros pretos relatam sofrer discriminação. O índice é de 17% entre pardos e de 7% entre brancos. Entre as situações descritas por Veiga estão microviolências cotidianas, como ser seguido por seguranças ou perceber alguém apertando a bolsa contra o corpo ao passar por uma pessoa negra. Ele também cita a injúria racial e as estruturas econômicas, políticas e sociológicas do racismo.
Para o psicólogo, o cuidado em saúde mental precisa reconhecer o racismo como um problema social que afeta a subjetividade. A proposta apresentada no livro é chamada de clínica do impossível, porque o fim do racismo não seria alcançado nesta geração, mas ainda seria necessário criar formas de cuidado nesse intervalo.
Identidade e cuidado psicológico
O primeiro passo indicado por Veiga é “tornar-se negro”, expressão formulada pela psiquiatra e psicanalista brasileira Neusa Santos Souza nos anos 1980. O processo envolve consciência política, afirmação do corpo e reconstrução da identidade e da autoimagem.
Com base em estudos de Neusa Souza e de Frantz Fanon, psiquiatra e filósofo político autor de "Pele Negra, Máscaras Brancas" (Ubu), Veiga afirma que o ódio racial é projetado sobre o corpo negro. A violência voltada à pele e aos traços físicos pode levar a pessoa a entender o próprio corpo como fonte de risco, desenvolver rejeição de si e assumir a culpa por agressões que deveriam ser atribuídas ao autor da violência ou à estrutura racista.
Nesse processo, a terapia pode funcionar como um espaço de proteção, fortalecimento e reconstrução da autoimagem. Veiga defende que psicólogos estudem o racismo, porque a produção predominante da área foi elaborada por teóricos brancos para compreender subjetividades e sofrimentos da população branca.
Entre os efeitos específicos associados à experiência cotidiana do racismo, ele cita baixa autoestima, insegurança, dúvidas sobre as próprias capacidades e desconforto com o corpo. O trabalho clínico buscaria retirar do paciente sentimentos de culpa e inferioridade e devolver à branquitude a responsabilidade pelas violências raciais.
Rotas de fuga
A proposta também inclui afirmar a vida depois de reconhecer que o fim do racismo é um objetivo impossível no curto prazo. Isso significa rejeitar a tristeza imposta pelo racismo e reivindicar o direito de ocupar a cidade, o próprio corpo e os espaços conquistados.
Veiga apresenta como exemplo a trajetória de seu avô, Antônio da Veiga, diagnosticado com bipolaridade e submetido a internação em uma clínica psiquiátrica. Depois de fugir, ele conheceu a avó do autor e formou uma família. Em um episódio de mania, trocou o aparelho de som da família por um cavalo, criado no quintal. O cuidado com o animal e as atividades com os netos passaram a integrar uma rotina de criação e convivência.
Para Veiga, a família, o cavalo e o cuidado com os netos expressaram maneiras de construir caminhos diante de situações das quais não era possível escapar. A ideia de criar rotas de fuga e de cura aparece como uma forma de preservar a capacidade de produzir modos de existência livres e criativos.


