O transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) pode envolver dificuldades de motivação, controle de impulsos, autorregulação emocional e permanência em uma tarefa, além dos problemas associados à atenção. Essa interpretação é discutida pelo psiquiatra Awais Aftab, pesquisador e professor associado clínico de psiquiatria na Case Western Reserve University School of Medicine, em Cleveland, Ohio, nos EUA.
Um estudo publicado no periódico Cell analisou como medicamentos estimulantes afetam circuitos cerebrais de crianças. Os pesquisadores observaram efeitos em redes relacionadas à relevância, à recompensa e à excitação, mas não detectaram alterações nas redes de atenção, independentemente de as crianças terem ou não diagnóstico de TDAH.
O resultado questiona a ideia de que o transtorno seja explicado principalmente por uma falha na atenção corrigida pelos estimulantes. Na neurociência, atenção costuma designar a amplificação seletiva de informações relevantes. Essa capacidade pode ser examinada em tarefas que avaliam, por exemplo, a habilidade de ignorar informações conflitantes ou localizar um alvo entre distrações.
Atenção e engajamento
No cotidiano, porém, as queixas associadas ao TDAH geralmente dizem respeito a não permanecer em uma atividade, perder o fio de uma conversa ou esquecer instruções. Essas situações estão mais próximas do engajamento sustentado: a capacidade de manter o foco em um mesmo objetivo ao longo do tempo.
Uma tarefa pode não se manter ativa na mente porque não parece recompensadora ou significativa. Nesse modelo, os estimulantes não necessariamente corrigem uma falha específica no mecanismo da atenção. Eles podem aumentar a relevância percebida de atividades comuns e facilitar a permanência nelas. Essa hipótese também é usada para explicar por que esses medicamentos podem acalmar crianças hiperativas, enquanto pessoas sem TDAH que usam anfetaminas podem se sentir agitadas e aceleradas.
A distinção entre atenção e engajamento não é a única alternativa para compreender o transtorno. Em um experimento de 1992, o psicólogo do desenvolvimento Edmund Sonuga-Barke e colegas ofereceram a crianças hiperativas escolhas entre uma recompensa pequena e imediata e outra maior, mas tardia. Elas preferiram a primeira quando isso permitia encerrar o experimento mais cedo. Para Sonuga-Barke, a dificuldade poderia estar menos na incapacidade de esperar e mais na aversão à espera.
Impulsos, emoções e tempo
O pesquisador também relacionou o TDAH a diferentes processos, como a dificuldade de interromper uma ação já iniciada, a aversão intensa à espera e problemas para acompanhar acontecimentos ao longo do tempo. Testes neuropsicológicos medem memória de trabalho, controle de impulsos e capacidade de aguardar uma recompensa. Nenhuma alteração, porém, aparece em todas as pessoas com TDAH, e nenhum déficit é exclusivo do transtorno. Por isso, esses testes não são considerados padrão-ouro para o diagnóstico.
O neuropsicólogo clínico Russell Barkley propôs que o problema central pode envolver a inibição de comportamentos, a regulação das emoções, a motivação e a memória de trabalho. Nessa perspectiva, algumas pessoas vivem com um presente reduzido, no qual as consequências futuras têm pouco peso. A expressão de Barkley para essa experiência, cegueira do tempo, tornou-se uma caracterização conhecida. Seu trabalho posterior também apontou a autorregulação emocional como aspecto central, com impulsividade emocional e baixa tolerância à frustração.
A ênfase exclusiva na atenção pode deixar sem reconhecimento pessoas que enfrentam atrasos, tédio, instabilidade emocional ou dificuldade para iniciar tarefas sem a pressão de um prazo. Ao mesmo tempo, a ampliação dos aspectos associados ao TDAH torna mais complexa a definição dos limites do transtorno e alimenta dúvidas sobre quais dificuldades devem ser tratadas como uma condição médica diagnosticável.
Diagnóstico e tratamento
O uso de medicamentos para ajudar crianças a permanecer sentadas em sala de aula ou adultos a tolerar tarefas monótonas provoca desconforto em parte da sociedade. Também há pessoas que recorrem a remédios para sustentar rotinas consideradas insustentáveis para elas. Ambientes de trabalho que exigem lidar com múltiplas tarefas e atividades tediosas, além do uso de telefones celulares e redes sociais, podem intensificar a dispersão e a impaciência.
Ainda assim, o consenso na psiquiatria é que o TDAH é um problema genuíno com tratamentos eficazes. Estudos observacionais associam o tratamento medicamentoso a reduções em mortes, automutilação, acidentes de trânsito, condenações criminais e uso indevido de substâncias.
Para Aftab, a dificuldade não deve ser localizada apenas no cérebro nem somente no ambiente. O prejuízo pode surgir da interação entre capacidades mentais e exigências situacionais. As pesquisas acumuladas apontam para a participação do controle de impulsos e da motivação, sem eliminar a influência de outros circuitos cerebrais nas dificuldades de foco.
O nome TDAH, portanto, pode não descrever adequadamente a variedade de experiências relacionadas ao transtorno. A investigação sobre como o cérebro funciona continua alterando a compreensão do diagnóstico e de seus tratamentos.


