O Brasil chega às eleições de 2026 com níveis recordes de emprego e renda, mas também com aumento do endividamento das famílias. A taxa de desemprego ficou em 5,3% nos três meses até agosto, o menor patamar para esse período na série histórica do IBGE, iniciada em 2012.
Até agosto, 103,5 milhões de pessoas de 14 anos ou mais estavam ocupadas, considerando trabalhadores formais e informais. O número é o maior já registrado pelo instituto. A renda média da população ocupada chegou a R$ 3.777 por mês, também o maior valor para o trimestre encerrado em agosto.
Ao mesmo tempo, dados da CNC mostram que 82% das famílias tinham dívidas a vencer em agosto, o maior nível da série histórica, iniciada em 2010. O indicador inclui compromissos com cartão de crédito, cheque especial, carnês, empréstimos e outras modalidades.
Nos meses de agosto dos anos de eleições presidenciais anteriores, o percentual havia sido de 59,1% em 2010, 63,6% em 2014, 60,7% em 2018 e 79% em 2022. A proporção de famílias com contas em atraso foi de 29,9% no último agosto, ante 29,6% em agosto de 2022. O pico da série ocorreu em setembro e outubro de 2025, quando alcançou 30,5%.
Em agosto de 2026, 12,5% das famílias afirmavam não ter condições de pagar contas atrasadas. O índice superou os 10,8% registrados quatro anos antes e ficou abaixo do pico de 13,2%, observado em outubro de 2025.
Fabio Bentes, economista-chefe da CNC, afirmou que a permanência no emprego e ganhos de consumo e qualidade de vida costumam favorecer a reeleição de um governante. Para ele, porém, a combinação de melhora no trabalho e pressão das dívidas produz sinais divergentes para a disputa. “Faz sentido que a disputa esteja tão acirrada como está para o governo federal e na maioria dos estados”, disse.
A taxa Selic está em 13,75% ao ano. O nível elevado reflete a tentativa do Banco Central de conter a inflação depois de medidas que estimularam a economia. Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, a queda do desemprego e sinais recentes de trégua da inflação ainda formam um quadro favorável ao governo Luiz Inácio Lula da Silva, mas a inadimplência representa um ponto de pressão.
Um artigo assinado por Pedro Avelino, Flávio Ataliba Barreto e João Mário Santos de França afirmou que o crédito continua crescendo em linhas mais caras, enquanto o comprometimento da renda e a inadimplência bancária permanecem em níveis recordes ou próximos disso, com maior pressão entre as famílias de menor renda.
A técnica em enfermagem Luana Dutra Gomes, 37, relatou que já tinha o orçamento comprometido por um empréstimo vinculado ao salário de um emprego formal quando sofreu um golpe digital no ano passado. Segundo ela, outras duas operações de crédito foram contratadas fraudulentamente em seu nome. A trabalhadora afirma que tenta resolver o caso na Justiça. “Meu nome sujou. Não consegui pagar cartão, não consegui fazer mais nada, me atolei em dívida”, disse. Ela vendeu pertences, faz trabalhos temporários e recebe doações de alimentos.

