A presença de ingredientes pouco familiares no rótulo não determina, por si só, se um alimento é adequado. Para a nutricionista Maeve Hanan, da Associação Britânica de Dietética, o valor nutricional e o equilíbrio da alimentação têm mais peso do que o tamanho da lista de componentes.
Hanan avaliou uma lista semanal de compras que incluía frutas, verduras, cereais e nuggets de frango. Embora tenha identificado produtos ultraprocessados, ela considerou que havia variedade entre os grupos alimentares. A classificação Nova, usada em pesquisas sobre o tema, leva em conta o grau de processamento e os ingredientes e aditivos empregados, não apenas a quantidade de itens da fórmula.
O que entra nessa classificação
Alimentos ultraprocessados são produtos industriais submetidos a várias etapas de processamento e que costumam conter substâncias pouco usadas em cozinhas domésticas, como emulsificantes, aromatizantes, corantes e adoçantes. Há evidências associando o consumo elevado desses produtos a obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes e outros distúrbios metabólicos. Também são investigadas possíveis relações com problemas de saúde mental e maior risco de morte prematura.
Ainda não há consenso entre cientistas, médicos e nutricionistas sobre o motivo dessas associações. A dúvida envolve o papel do teor de gordura, açúcar, sal e calorias e a possibilidade de o próprio processamento contribuir para os efeitos observados.
Mais da metade das calorias consumidas no Reino Unido vem de alimentos ultraprocessados. O médico Chris van Tulleken afirma que eles são “quase impossíveis de evitar”, inclusive na alimentação de sua família. Para ele, esses produtos são saborosos e difíceis de resistir. Van Tulleken defende uma rotulagem que identifique alimentos com alto teor de gordura, açúcar e sal.
O exemplo dos nuggets
Hanan disse que compra para a família uma caixa de cereais classificada como ultraprocessada porque considera que ela oferece benefícios à saúde. Na avaliação dela, alguns produtos com nomes químicos no rótulo também podem ter funções específicas e ser aprovados pelas leis alimentares do Reino Unido.
Os nuggets de frango, por exemplo, fornecem proteína, mas têm mais gordura e sal que um peito de frango simples. Por isso, a nutricionista recomenda consumi-los com moderação e dentro de uma dieta equilibrada. A combinação citada na lista incluía nuggets, cenoura crua e macarrão.
Megan Bamford conta que retirar ultraprocessados da dieta ajudou no controle da síndrome do intestino irritável e da dor crônica. Como mãe de duas crianças pequenas, porém, ela afirma que nem sempre consegue cozinhar tudo do zero. Sua filha Ella, de sete anos, tem dificuldades alimentares e, em determinado período, precisou receber alimentos ultraprocessados industrializados.
Megan mantém frutas, legumes, sementes e aveia em casa e também compra cereais matinais, batatas fritas e biscoitos. Ela procura produtos com cinco ingredientes ou menos e diz escolher as opções mais saudáveis disponíveis.
Debate sobre o processamento
O cientista de alimentos David Julian McClements considera que o conceito de ultraprocessado ainda não está bem definido. Ele afirma que alguns estudos associam o maior processamento ao consumo excessivo e a alterações na microbiota intestinal, mas que não há evidências conclusivas de que essas mudanças sejam necessariamente prejudiciais.
A Federação de Alimentos e Bebidas, que representa fabricantes do Reino Unido, contesta as afirmações de Van Tulleken. A entidade diz ter investido milhões de libras em inovação e afirma que seus membros reduziram sal, açúcar e calorias em quase um quinto nos últimos cinco anos.
Para Hanan, a avaliação deve considerar o conjunto da dieta ao longo do tempo. Um alimento isolado, segundo ela, não define se a alimentação é saudável ou não.


