Cixin Liu se tornou um dos principais nomes da ficção científica contemporânea ao combinar conceitos científicos, referências à história chinesa e personagens comuns diante de ameaças cósmicas. Ex-engenheiro de computação, o autor chinês ganhou projeção internacional, recebeu elogios de Barack Obama e teve sua obra adaptada pela Netflix na série O Problema dos Três Corpos.
Nascido em 1963, Liu tinha 7 anos quando viu o satélite Dong Fang Hong I atravessar o céu noturno, em abril de 1970, na província chinesa de Shanxi. A experiência marcou sua imaginação. Aos 63 anos, ele é reconhecido como um dos principais escritores de ficção científica do mundo. A publicação, no Brasil, da coletânea Terra à Deriva amplia o contato dos leitores com sua produção.
Ciência, casa e sobrevivência
No conto que dá nome ao livro, o envelhecimento do Sol ameaça a vida humana. Em vez de abandonar a Terra em naves, os personagens constroem 12 000 turbinas para deslocar o planeta até outra estrela. A escolha, segundo Liu, expressa o “apego ao lar” da cultura chinesa.
A mesma combinação de escala astronômica e experiência cotidiana aparece em Sol da China. A história acompanha um limpador de janelas encarregado da manutenção de um enorme espelho refletor orbital, criado para controlar o clima do planeta. A tecnologia surge como promessa de progresso e fonte de assombro, enquanto a ação depende da determinação de pessoas comuns.
A trilogia formada por O Problema dos Três Corpos, A Floresta Sombria e O Fim da Morte começou em 2006. A narrativa se inicia durante a Revolução Cultural, em 1967, quando a filha de um professor de física presencia o espancamento público do pai pela Guarda Vermelha. A violência a leva a enviar as coordenadas da Terra a uma civilização alienígena, na esperança de encontrar uma força capaz de salvar a humanidade.
O governo chinês exigiu uma alteração no romance: o capítulo inicial foi deslocado para o meio da obra. Na tradução para o inglês, feita por Ken Liu, a cena voltou à abertura. Cixin Liu continua vivendo na China e mantém uma relação cordial com o governo do país.
O receio com a inteligência artificial
As preocupações atuais do escritor estão ligadas à evolução da inteligência artificial. Na trilogia, supercomputadores espionam a humanidade. Para Liu, porém, o maior risco não é apenas a substituição de autores, mas a perda de valor atribuída ao trabalho humano.
“A IA ameaça a literatura”, afirmou. Na avaliação do escritor, obras como Ulisses, de James Joyce, têm importância também pelo esforço e pelo sofrimento envolvidos em sua criação. Se sistemas produzirem textos complexos em segundos, a arte poderá perder prestígio entre leitores e críticos.
Liu também considera arriscado enviar sinais ao espaço sem cautela. Para ele, transmitir as coordenadas terrestres a uma civilização desconhecida equivale a falar com estranhos ou abrir a porta para alguém durante a noite. A Academia Internacional de Astronáutica já proíbe transmissões ativas sem ampla consulta, segundo o autor.


