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Cultura

Em “Lições de Grego”, Han Kang aproxima silêncio, cegueira e filosofia

Romance de Han Kang constrói encontro entre uma mulher sem fala e um professor que perde a visão, mas deixa suas conexões explícitas demais.

Em “Lições de Grego”, Han Kang aproxima silêncio, cegueira e filosofia
Foto: Jean Chung/The New York Times

Uma mulher que perdeu a fala começa a estudar grego antigo com um professor que está ficando cego. Os dois se encontram em uma escola de idiomas em Seul, em um romance no qual o silêncio e a dificuldade de enxergar organizam a aproximação entre os protagonistas.

Publicado por Han Kang em 2011, “Lições de Grego” acompanha personagens marcadas por perdas. A mulher decidiu aprender a língua depois de perder a mãe, o casamento, a guarda do filho e, pela segunda vez, a capacidade de falar. O professor estudou grego antigo na Alemanha, para onde emigrou aos 15 anos, e retornou à Coreia quando sua visão começava a se deteriorar.

A narrativa alterna uma voz em terceira pessoa, associada à mulher emudecida, e outra em primeira pessoa, ligada ao homem que perde a visão. As perspectivas se aproximam gradualmente, embora não se possa dizer que os dois conversem de modo convencional.

Filosofia, literatura e trauma

Jorge Luis Borges aparece desde o epitáfio que abre o livro e retorna no terceiro capítulo. O professor recorda uma tradução de “O que É o Budismo?”, escrita pelo argentino com Alicia Jurado. A lembrança se conecta a um festival que celebra o nascimento de Buda e às lanternas de papel, tomadas como imagem de uma beleza transitória.

A mulher estuda em uma edição bilíngue de “A República”, de Platão. A Teoria das Formas permanece ao fundo, sustentando as relações entre verdade, beleza e sofrimento. O trauma, nesse universo, antecede a biografia: as personagens são apresentadas primeiro por suas feridas.

O romance desloca a poética da violência histórica para estados não normativos de existência. Esse movimento amplia o campo da autora, mas também faz com que o enigma seja substituído pela alegoria. As correspondências entre os elementos são tão precisas que o desenho da narrativa se torna previsível: a cegueira do professor se liga à de Borges, a mudez da mulher se aproxima da condição de uma língua morta e o grego antigo remete à impermanência budista.

A escrita e a cadência sustentam a leitura, além de oferecerem descrições sensoriais. A dor, por sua vez, não é inflada. Há uma leveza discreta no modo como as perdas atravessam a história, e essa contenção se mostra mais eficaz do que a arquitetura simbólica.

A edição brasileira traz um equívoco na página 22, quando o professor afirma ter lido “romances” de Borges. O escritor argentino não publicou romances; sua obra se concentra em contos, ensaios e poemas. Em outras edições, aparece o termo “ficções”. Fora esse ponto, a tradução preserva o ritmo cadenciado da prosa de Han Kang.

Texto produzido pela Redação Caderno Atual com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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