SEOUL — Uma mulher que perdeu a fala começa a estudar grego antigo com um professor que está ficando cego. Os dois se encontram em uma escola de idiomas em Seul, em um romance no qual o silêncio e a dificuldade de enxergar organizam a aproximação entre os protagonistas.
Publicado por Han Kang em 2011, “Lições de Grego” acompanha personagens marcadas por perdas. A mulher decidiu aprender a língua depois de perder a mãe, o casamento, a guarda do filho e, pela segunda vez, a capacidade de falar. O professor estudou grego antigo na Alemanha, para onde emigrou aos 15 anos, e retornou à Coreia quando sua visão começava a se deteriorar.
A narrativa alterna uma voz em terceira pessoa, associada à mulher emudecida, e outra em primeira pessoa, ligada ao homem que perde a visão. As perspectivas se aproximam gradualmente, embora não se possa dizer que os dois conversem de modo convencional.
Filosofia, literatura e trauma
Jorge Luis Borges aparece desde o epitáfio que abre o livro e retorna no terceiro capítulo. O professor recorda uma tradução de “O que É o Budismo?”, escrita pelo argentino com Alicia Jurado. A lembrança se conecta a um festival que celebra o nascimento de Buda e às lanternas de papel, tomadas como imagem de uma beleza transitória.
A mulher estuda em uma edição bilíngue de “A República”, de Platão. A Teoria das Formas permanece ao fundo, sustentando as relações entre verdade, beleza e sofrimento. O trauma, nesse universo, antecede a biografia: as personagens são apresentadas primeiro por suas feridas.
O romance desloca a poética da violência histórica para estados não normativos de existência. Esse movimento amplia o campo da autora, mas também faz com que o enigma seja substituído pela alegoria. As correspondências entre os elementos são tão precisas que o desenho da narrativa se torna previsível: a cegueira do professor se liga à de Borges, a mudez da mulher se aproxima da condição de uma língua morta e o grego antigo remete à impermanência budista.
A escrita e a cadência sustentam a leitura, além de oferecerem descrições sensoriais. A dor, por sua vez, não é inflada. Há uma leveza discreta no modo como as perdas atravessam a história, e essa contenção se mostra mais eficaz do que a arquitetura simbólica.
A edição brasileira traz um equívoco na página 22, quando o professor afirma ter lido “romances” de Borges. O escritor argentino não publicou romances; sua obra se concentra em contos, ensaios e poemas. Em outras edições, aparece o termo “ficções”. Fora esse ponto, a tradução preserva o ritmo cadenciado da prosa de Han Kang.


