O jornalista e escritor Haroldo Ceravolo Sereza afirma que a campanha Lula Livre alterou a forma de articulação entre diferentes setores da esquerda brasileira. Para ele, a mobilização criou condições para a busca de acordos e para a administração de divergências sem rupturas entre organizações e partidos.
A avaliação está no livro Um por todos, todos por Lula, publicado pela Autêntica. A obra reúne entrevistas, relatos e documentos sobre o movimento formado durante os 580 dias em que Luiz Inácio Lula da Silva permaneceu preso em Curitiba.
Entre 2018 e 2019, a campanha reuniu juristas, artistas, intelectuais e militantes em atos, protestos, shows e vigílias. A mobilização contestava as acusações que levaram Lula à prisão e, segundo Sereza, também expôs a fragilidade do conjunto de conquistas sociais construído ao longo da democracia brasileira.
Uma mobilização com base organizada
Sereza compara a campanha Lula Livre às mobilizações pelas Diretas Já e pela Anistia. As três experiências, segundo ele, tiveram estrutura horizontal, com influência limitada das direções sobre as decisões tomadas pelas bases.
A diferença estaria no grau de organização acumulado pela esquerda. O Partido dos Trabalhadores surgiu em 1980, o MST em 1984 e a CUT em 1983. Durante as campanhas da Anistia e das Diretas, essas organizações ainda reuniam pouca experiência. Na campanha Lula Livre, elas já estavam consolidadas e puderam combinar mais táticas e frentes de atuação.
Na análise do escritor, a prisão de Lula também afetou a confiança nas instituições. A Constituição de 1988 havia sido acompanhada por avanços em educação, saúde e direitos políticos e civis. A campanha mostrou, porém, que esse pacto social poderia ser abandonado por parte da elite brasileira.
Sereza relaciona esse processo às políticas dos governos Lula e Dilma, que, em sua avaliação, ampliaram a distribuição de renda, fortaleceram universidades e pesquisa científica e adotaram uma política externa mais independente. A retirada de Dilma do poder e a prisão de Lula teriam representado, para ele, uma reação a esses avanços.
Democracia e pressão internacional
O autor afirma que a prisão de Lula contribuiu para a eleição de Bolsonaro em 2018 e que a reconstrução do que foi destruído naquele período permanece difícil. Ao mesmo tempo, sustenta que forças sociais e populares participaram da retomada democrática.
Para Sereza, a mobilização popular é necessária, mas não basta. O Estado também deveria atuar contra a ideologia fascista no país e resistir ao apoio internacional dado à extrema-direita. Ele associa esse debate à atuação dos Estados Unidos na Venezuela e à interferência norte-americana em eleições de países do Cone Sul, inclusive no Brasil.
“A desconstrução do fascismo, sem ser pela via armada, é um processo em que o Brasil apostou e vem sendo bem-sucedido”, afirma. Na visão do escritor, a campanha Lula Livre deixou experiências que podem ser aprofundadas nesse processo.
Sereza também considera importante a eleição de Lula para um quarto mandato. Ele atribui ao presidente capacidade para conduzir situações complexas, mas ressalta que as eleições de 2026 não ocorreriam em condições normais por causa dos ataques que classifica como imperialistas e fascistas, nacionais e internacionais.
A permanência do vínculo com os trabalhadores
Ao explicar a força política de Lula, Sereza recorre ao pensamento de Florestan Fernandes e ao compromisso do petista com a classe trabalhadora. Para o escritor, a conciliação entre interesses de trabalhadores e empresários não significou o abandono das demandas populares.
Ele diferencia Lula de políticos que mudaram de posição ao longo da carreira. Cita Carlos Lacerda, que passou do Partido Comunista para a extrema-direita e apoiou os militares em 1964, e Ciro Gomes, que percorreu diferentes partidos e hoje, segundo Sereza, está próximo do bolsonarismo.
Lula, afirma o autor, manteve coerência durante mais de 50 anos de atuação e não deixou o PT, mesmo diante de derrotas internas ou mudanças de estratégia. Essa continuidade teria contribuído para o respeito conquistado entre parcelas expressivas da população.
Sereza diz acreditar em uma vitória de Lula nas eleições deste ano, talvez ainda no primeiro turno, mas reconhece que a interferência externa e a atuação de forças fascistas podem alterar as condições da disputa.
Reorganização e frentes eleitorais
Para o escritor, a campanha Lula Livre não criou sozinha as práticas de mobilização usadas pela esquerda. Ela teria recuperado e adaptado experiências de décadas anteriores, com participação do MST, da CUT e do PT.
Outro elemento destacado é a atuação conjunta de advogados, procuradores, juízes e juristas. Mesmo sem uma participação central da OAB na defesa da liberdade de Lula, esses profissionais teriam contribuído para a construção da saída jurídica que levou à libertação do presidente.
A principal consequência organizativa, segundo Sereza, é a necessidade de campanhas compostas por frentes diversas e especializadas, reunidas em torno de um objetivo comum. Ele rejeita a ideia de que a esquerda esteja desorganizada no país e afirma que o campo mantém base social, especialmente entre jovens.
O autor observa que pautas de classe, raça, gênero, ensino e saúde aparecem combinadas nos espaços de militância. Para ele, a falta de recursos econômicos e de espaço na opinião pública pode produzir a impressão de desarticulação, mas não elimina a organização existente.
Sereza lembra que cinco das últimas seis eleições foram vencidas pela esquerda. Também menciona três governos de direita anteriores: Fernando Collor e os dois mandatos de Fernando Henrique. Na avaliação dele, derrotas eleitorais pontuais não significam desaparecimento ou ausência de organização.
Alianças para 2027
A esquerda, na visão do escritor, não possui hoje uma pauta tão unificadora quanto a campanha Lula Livre. Ainda assim, partidos do campo formaram alianças regionais e frentes amplas para enfrentar o bolsonarismo.
Em São Paulo, ele cita uma frente para o Senado formada por partidos de diferentes posições. A disputa pelo governo é liderada por Fernando Haddad, do PT, enquanto Marina Silva, da Rede, e Simone Tebet, do PSB, concorrem ao Senado.
No Rio Grande do Sul, a estratégia teria sido apoiar o PDT para o governo e concentrar esforços na disputa pelo Senado. Sereza afirma que esse arranjo poderia resultar na eleição de dois senadores de esquerda em um estado identificado por ele como bolsonarizado nas eleições anteriores.
Esses acordos regionais, segundo o autor, podem fortalecer a bancada de esquerda no Congresso Nacional em 2027. A confiança construída durante a campanha Lula Livre teria ajudado diferentes grupos a tratar divergências como parte da convivência política, e não como motivo para dissidências.


