O livro Impossível, de Francis Naumann, reconstitui a relação amorosa entre a escultora brasileira Maria Martins e Marcel Duchamp, a partir de documentos de arquivo e entrevistas com familiares. O romance, mantido em grande parte longe do público, influenciou trabalhos dos dois artistas e atravessou períodos de separação entre Nova York, Paris e o Brasil.
A obra que dá nome ao livro é O Impossível, escultura produzida por Martins em 1945. As duas formas de bronze que a compõem parecem se lançar uma contra a outra. Uma delas, mais baixa e larga, tem aparência semelhante à de uma água-viva; a outra combina cintura marcada, quadril largo e seios femininos com uma boca que lembra uma planta carnívora. A composição sugere uma relação de atração e confronto.
Cartas, distância e influência
É provável que Martins e Duchamp tenham se conhecido em 1943, quando ela vivia em Nova York como embaixatriz. Na época, era casada com o embaixador do Brasil nos Estados Unidos e não pretendia deixar o marido. O vínculo entre os dois foi reconstruído por Naumann com lacunas: Duchamp costumava rasgar as cartas depois de respondê-las, e não se sabe o conteúdo do que Martins escrevia.
As cartas dele, porém, registram a intensidade da relação. Em outubro de 1948, Duchamp escreveu: “Como eu gostaria de respirar com você”. Em 1950, quando Martins já havia se mudado para Paris com o marido, afirmou que o isolamento entre os dois lhe causava dor.
Naumann sustenta que a paixão por Martins contrasta com a imagem pública que Duchamp procurava construir, associada à liberdade diante das convenções afetivas. O historiador também considera possível que, no caso dela, a influência artística tenha seguido de Martins para Duchamp, e não apenas no sentido atribuído tradicionalmente ao francês.
A relação aparece ainda em Étant Données, trabalho realizado entre 1946 e 1966. Uma carta de Duchamp, de 1949, indica que a instalação foi inspirada em Martins. A obra só foi exibida em 1969, no Museu de Arte da Filadélfia, depois da morte do artista, em 1968. O visitante observa, por meio de dois orifícios em uma porta de madeira, o corpo nu de uma mulher diante de uma cachoeira. Martins foi a modelo.
Duchamp presenteou a artista com um estudo da instalação, acompanhado da inscrição de que a peça lhe pertencia com todo o afeto. Martins guardou o trabalho em seu quarto e depois o emprestou para uma retrospectiva do amante na Tate Gallery, em Londres.
Encontro no circuito artístico
Duchamp ajudou a inserir Martins no círculo surrealista de Paris e a incluiu na Exposition Internationale du Surréalisme, em 1947, onde ela apresentou O Impossível. Martins também apoiava o amante financeiramente e comprava obras a pedido dele, como Broadway Boogie Woogie, de Piet Mondrian, posteriormente doada ao MoMA.
Em 1948, o marido de Martins foi nomeado embaixador do Brasil na França, e a família se mudou para Paris. No ano seguinte, com a aposentadoria dele, ela voltou definitivamente ao Brasil. A distância dificultou a continuidade do relacionamento. Em 1951, Duchamp escreveu que havia aceitado a situação e deixou para Martins uma folha com um coração vermelho e a inscrição “isso é para Maria”.
Naquele mesmo ano, ele conheceu Teeny Matisse, com quem se casaria em 1954. Martins e Duchamp se encontraram novamente em 1966, pela última vez. Naumann acredita que, nessa ocasião, o artista tenha assinado no braço de uma boneca a inscrição “Marcel Duchamp 1946-1966”. Para o historiador, o vínculo emocional com Martins foi decisivo para a realização da obra.


