SANTOS — A atriz argentina Marina Otero apresentou no Mirada — Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas do Sesc São Paulo, em Santos, a conferência performática “Ayoub - El Amor me Enseña a no Amar”. A obra aborda a Faixa de Gaza, o colonialismo, a imigração e uma relação marcada por abusos.
A apresentação começa com a exibição repetida de um email em um telão, sobre imagens de dois corpos caídos no chão na Faixa de Gaza. Uma instituição não identificada informa Otero de que ela deveria retirar expressões como “Palestina Livre” e “genocídio” da obra para que ela pudesse ser apresentada na Alemanha. A artista decide manter o manifesto pró-Palestina.
Amor, imigração e desigualdade
Estreado em 2025, o espetáculo circulou pela Europa antes de chegar ao Brasil. Otero mistura relatos pessoais e ficção sem delimitar o que aconteceu de fato. A narrativa parte do projeto artístico “Recordar para Vivir”, no qual ela coloca o próprio corpo em risco a serviço de uma criação teatral.
Na história, a artista viaja ao Marrocos para encontrar um homem e propor um casamento negociado. Ela oferece cidadania europeia e uma casa confortável em Madri, na Espanha, onde mora, em troca de alguém que finja estar completamente apaixonado.
A proposta inicialmente pretendia tratar da imigração de pessoas que esperam encontrar soluções em outro país e da dependência emocional de uma mulher que precisa de um homem a seus pés para não se sentir sozinha. As duas situações são apresentadas como ilusões ligadas à ideia de salvação.
Os planos fracassam quando a protagonista se envolve de fato com Ayoub, um vendedor de doces que se aproxima da turista por obrigação profissional e acaba conquistando-a. O personagem faz referência à Palestina. De acordo com Otero, Ayoub significa “o retornado” ou “o arrependido” e é um nome comum em países islâmicos. Ela afirma que 115 crianças mortas na Faixa de Gaza receberam esse nome.
“Em homenagem a essas crianças mortas, dou o teu nome a essa obra que fala de ti, do colonialismo, da Palestina. E de tudo o que quero matar dentro de mim”, diz a artista no texto de apresentação.
Autocrítica em cena
Interpretado pelo espanhol Ibrahim Ibnou Goush, Ayoub relata os abusos cometidos pela protagonista. Ele afirma ter tido a vida roubada durante 15 anos, dos 25 aos 40, período em que viveu em Madri, acompanhou a rotina da companheira e foi tratado como alguém inferior.
A encenação combina dança, golpes em um saco de treinamento, corridas até a plateia, fotografias e vídeos atribuídos ao romance. Em um momento de silêncio, Otero permanece de cabeça baixa enquanto escuta as reclamações do personagem marroquino.
Em entrevista ao Sesc, a artista disse que o casamento oferecido ao vendedor de doces é uma ironia para rir de si mesma e do olhar segundo o qual salvar outra pessoa não causa danos. Para ela, o projeto “Recordar para Vivir” continuará até sua morte, a partir de temas como amor, tempo, desigualdade e violência.
Ao fim das apresentações em Santos, Otero e Goush retornaram ao palco com figurinos palestinos e ouviram gritos de apoio ao território no Oriente Médio. A artista também criou “Recordar 30 años para vivir 65”, “Fuck me”, “Love me” e “Kill me”, além de oferecer oficinas e seminários de criação em diferentes partes do mundo.


