A maior exposição apresentada pelo Masp neste ano reúne quase 200 obras distribuídas por cinco andares do edifício Pietro Maria Bardi. A mostra parte da diversidade dos 20 países da América Latina para aproximar cosmologias de povos originários, projetos de modernidade e marcas deixadas por processos de colonização.
A curadora Amanda Carneiro afirma que a exposição trata a região como uma composição de grupos distintos, que desenvolveram estratégias próprias de existência. As obras foram organizadas em núcleos que abordam as relações entre humanidade e natureza, o espaço urbano, a circulação de símbolos e a reapropriação de referências religiosas e culturais.
Natureza, cidades e controle
Entre os trabalhos ligados às tradições indígenas estão uma pintura de Beatriz González sobre rotas migratórias em um território verde, os vasos do peruano Manuel Chajavay e uma árvore genealógica de Guadalupe Maravilla, construída como uma serpente monumental com palha e outros materiais.
Em outros andares, aparecem arranha-céus, fábricas e estruturas urbanas associadas a São Paulo, Buenos Aires e à Cidade do México. Uma tela de Juan O’Gorman sobrepõe um mapa ancestral a uma visão de prédios e ruas. Também estão na mostra o uniforme de Damián Ortega, feito com sacos de cimento, e fotografias de Marcelo Cidade que inserem falhas eletrônicas em paisagens de favelas.
Uma instalação de Mariana Castillo Deball desenha São Paulo no chão com traços pré-coloniais. Ao redor dela, plantas de Brasília e projetos modernistas de Lúcio Costa criam uma tensão com as formas indígenas de pensar o espaço.
Símbolos e heranças coloniais
Na seção “Estamos em Salsa”, uma cama de Pepón Osório reúne bonecas, cabeças de plástico, adesivos, estátuas fálicas e uma cobra artificial. O conjunto se aproxima de quadros e fotografias sobre a vida noturna em países latino-americanos.
Antonio Caro, Cildo Meireles e Rivane Neuenschwander reexaminam símbolos ligados à Coca-Cola. Neuenschwander inscreve o nome da mercadoria entre seres da série “Hidra Capitalista”. Anna Bella Geiger, por sua vez, representa o Brasil ao retirar partes do miolo de fatias de pão.
O núcleo “Sociedades Americanas” inclui trabalhos de Abdias do Nascimento, Paulo Nazareth e Daniel Lind-Ramos sobre identidades negras, independência e episódios coloniais. Já “O Mundo ao Revés” reúne obras que tratam da reapropriação de ideais cristãos, como “Our Lady”, de Alma Lopez, e “Quadro Ferido”, de Adriana Varejão.
Também integram essa seção uma obra inédita de Sandra Gamarra Heshiki, que revisa uma cartografia histórica com óxido de ferro, e uma escultura de Márcia X que pendura artigos religiosos em um objeto fálico. Para Carneiro, a seleção questiona uma moralidade imposta por forças externas e prioriza obras que não seguem necessariamente escolas ou cronologias legitimadas.


