As séries recentes sobre a máfia deixaram de tratar seus criminosos como figuras invencíveis. Em vez disso, apresentam chefes pressionados por disputas familiares, mudanças tecnológicas e concorrentes mais jovens, em histórias que combinam violência, ironia e dilemas sobre lealdade.
Famílias em declínio
Em Terra da Máfia, Conrad e Maeve Harrigan comandam o tráfico de drogas no norte de Londres. A segunda temporada acompanha a decadência da família, que acredita na força de uma dinastia construída no passado, mas enfrenta filhos problemáticos e um ambiente criminal mais competitivo.
Quando um rival sugere que os Harrigan ficaram ultrapassados, o casal mata uma dezena de adversários em um camarote de estádio. Harry Da Souza, o encarregado das tarefas práticas do grupo, precisa apagar os rastros do episódio. Um segurança resume a contradição dos patrões: “Se chama crime organizado por uma razão”.
Criada por Ronan Bennett e com episódios dirigidos por Guy Ritchie, a produção desloca os gângsteres para o século XXI. A influência de O Poderoso Chefão continua presente, mas os Harrigan são retratados como pessoas disfuncionais, vulneráveis a conflitos domésticos e incapazes de controlar as consequências de suas decisões.
Outras séries seguem caminho semelhante. Tulsa King mostra o personagem de Sylvester Stallone depois de 25 anos na prisão. Ao recuperar a liberdade, ele é afastado pelo filho do antigo chefe e enviado de Nova York para Tulsa, em Oklahoma, onde precisa reconstruir sua atividade criminosa.
Em Magnatas do Crime, um herdeiro de uma família rural descobre que uma propriedade está ligada a um império da maconha e é atraído para esse negócio. Já Os Donos do Jogo acompanha a disputa pelo comando dos bicheiros no Rio de Janeiro, ameaçados por jovens ambiciosos e pela possibilidade de legalização dos jogos de azar.
O crime como espelho cotidiano
O fascínio por esses personagens vem da combinação entre poder, inteligência e ambiguidade moral. Martin Scorsese relacionou esse imaginário à experiência de crescer em um bairro controlado pela máfia ítalo-americana, retratada em Os Bons Companheiros. Para ele, “No começo, o crime é glamouroso, principalmente se você for jovem e ingênuo”.
A televisão já havia alterado esse modelo com Família Soprano, lançada em 1999. Tony Soprano era um chefe criminoso envolvido com preocupações comuns, como a faculdade da filha, e buscava ajuda em uma terapeuta.
As produções atuais aproveitam essa herança para tratar o crime de modo menos realista e mais irônico. Em Terra da Máfia, a filha de Harry passa a extorquir influenciadores digitais sob o pretexto de protegê-los. Em Tulsa King, o protagonista exige 20% do lucro de uma loja de maconha medicinal legalizada em troca de proteção.
Essas situações aproximam os mafiosos de conflitos reconhecíveis: preservar negócios, lidar com a família e disputar espaço em um mercado que já não obedece aos códigos antigos.


