O aumento da temperatura dos oceanos já cria riscos para atividades econômicas que dependem do mar. A pesca pode perder produção, áreas turísticas podem ser prejudicadas e estruturas de geração de energia ficam mais expostas a interrupções e custos de adaptação.
A temperatura média dos oceanos, sem as regiões polares, alcançou 21,07 ºC em agosto, igualando o recorde de março de 2024. O dado foi registrado pelo observatório europeu Copernicus.
Tom Pickerell, especialista em biologia marinha e diretor do programa de oceanos do World Resources Institute (WRI), afirmou que "O calor prolongado nos oceanos não é apenas um problema ambiental". Para ele, o tema também deve ser acompanhado por ministros das Finanças. A discussão estará entre os principais assuntos da COP31, conferência do clima da ONU prevista para novembro, em Antália, na Turquia.
Pressão sobre a pesca e os preços
O calor persistente pode provocar doenças e morte de espécies marinhas. Também pode deslocar peixes para regiões mais frias, reduzindo a oferta em determinados pontos e levando ao fechamento de áreas de pesca.
Kathryn Smith, da Associação Britânica de Biologia Marinha, disse que esses episódios podem gerar perdas de milhões ou bilhões de dólares para comunidades afetadas e repercutir nos preços dos alimentos. A menor disponibilidade de pescado também atinge o processamento, as exportações, o comércio e os consumidores.
No Marrocos, segundo Pickerell, o aquecimento das águas contribuiu para a redução das populações de sardinha. O resultado foi a proibição das exportações e a escassez no mercado europeu. Quando há menos produto disponível e poucas alternativas para substituí-lo, a pressão sobre os preços tende a aumentar.
Recifes e atividades costeiras
Os recifes de coral estão entre os ambientes mais vulneráveis às ondas de calor marítimas. O excesso de temperatura provoca o branqueamento dos corais e pode degradar os ecossistemas.
A alteração desses ambientes pode atingir economias baseadas em praias, mergulho e observação da vida marinha. Hotéis, restaurantes, agências, operadores de mergulho e trabalhadores que dependem dos visitantes ficam expostos aos efeitos de uma mudança iniciada no oceano.
Usinas e áreas costeiras
A infraestrutura energética também pode sofrer com o aquecimento dos mares. Na França, reatores nucleares ficaram parados por causa da proliferação de águas-vivas. Os animais podem interferir nos sistemas que usam água do mar para operar as usinas, reduzindo a produção e elevando os custos de funcionamento e adaptação.
O aquecimento ainda contribui para a elevação do nível do mar. Como a água se expande ao esquentar, aumenta a pressão sobre cidades e estruturas instaladas no litoral. Comunidades e países insulares particularmente vulneráveis podem precisar ampliar investimentos em proteção, adaptação e reconstrução.
Tendência de temperaturas elevadas
O verão de 2026 no hemisfério norte, entre junho e agosto, foi o mais quente desde 1993, de acordo com o Copernicus Marine Service. O período recebeu influência do El Niño, fenômeno natural que se soma ao aquecimento global provocado pela atividade humana.
Zachary Labe, climatologista do Climate Central, afirmou que a mudança climática é o principal motor da tendência de longo prazo. Segundo ele, os oceanos passaram por uma sequência de "100 dias de calor recorde" para esta época do ano, com base em dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), alguns ainda preliminares.
Labe estima que os recordes de temperatura na atmosfera e nos oceanos continuem pelo menos até 2027. Para os cientistas, além de acelerar as políticas contra as mudanças climáticas, será necessário ampliar a preparação de empresas, governos e comunidades costeiras para impactos sobre produção, infraestrutura e renda.
Claire Bergin, pesquisadora da Universidade de Maynooth, na Irlanda, afirmou que a adaptação da vida marinha é mais limitada do que as medidas disponíveis em terra.


