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Economia

Como status, pertencimento e insegurança influenciam compras de luxo

Especialistas relacionam o consumo ostensivo à identidade, à comparação social e ao desejo de reconhecimento, além da renda disponível.

Como status, pertencimento e insegurança influenciam compras de luxo
Foto: Watcharin/Adobe Stock

O consumo de produtos caros pode cumprir funções que vão além da qualidade, do design ou do prazer de comprar. Bolsas, carros, celulares, roupas e outros bens também podem comunicar status, exclusividade e pertencimento, mesmo quando a compra ultrapassa o orçamento de quem a realiza.

A psicóloga econômica Vera Rita Ferreira afirma que as pessoas são influenciadas pelo comportamento ao redor desde cedo. No consumo, a imitação pode aparecer como uma tentativa de se destacar e garantir acesso simbólico a um grupo. Para ela, a exclusividade se torna parte da atração quando poucas pessoas conseguem adquirir determinado produto.

O bem como extensão da identidade

Nelsio Rodrigues, professor da Universidade Federal da Paraíba e pesquisador da área de consumo, associa esse comportamento também à busca por pertencimento. A decisão de comprar um item caro pode expressar diferenciação, mas pode igualmente indicar o desejo de fazer parte de uma comunidade identificada por marcas, lugares, eventos ou padrões de consumo.

Essa dinâmica é relacionada ao conceito de self estendido, formulado pelo pesquisador Russell Belk. A ideia é que os objetos possuídos contribuem para a construção da identidade. Um celular, um carro ou uma peça de roupa, nesse contexto, pode funcionar como um sinal sobre quem a pessoa é ou sobre o grupo ao qual pretende se associar.

A economia descreveu uma dimensão semelhante por meio da teoria do consumo conspícuo, formulada pelo economista e sociólogo americano Thorstein Veblen. O conceito trata da aquisição e da exibição de bens como forma de demonstrar riqueza e posição social.

Comparação e insegurança

Pesquisas também examinam relações entre ostentação, autoestima, exclusão social e relacionamentos. Vera Rita considera que a comparação com outras pessoas ajuda a explicar a necessidade de exibir determinados bens. A avaliação da própria posição social pode aumentar a busca por sinais externos de reconhecimento.

Um estudo publicado em 2023 na revista Frontiers in Psychology encontrou maior propensão ao consumo ostensivo entre participantes que haviam sido expostos a lembranças de rejeição ou traição, em comparação com aqueles que relembraram experiências positivas de relacionamento.

Outro trabalho, chamado Pavões, Porsches e Thorstein Veblen: o consumo ostentatório como sistema de sinalização sexual, analisou essa prática como uma possível forma de sinalização sexual. Em quatro experimentos, os pesquisadores encontraram, entre homens, associação entre determinados contextos de relacionamentos de curto prazo e gastos mais extravagantes. O resultado indica que bens ligados a status podem ter funções sociais além da comunicação de riqueza.

Fernanda, que recebeu o primeiro salário aos 18 anos, relata que parcelou uma bolsa cujo preço talvez superasse o valor recebido naquele mês. Depois, repetiu o padrão com outros produtos e com um carro maior e mais sofisticado do que considerava necessário para sua rotina.

“Eu precisava me autoafirmar perante o outro”, diz Fernanda. Ela relaciona o comportamento a uma experiência de abandono na infância e afirma que, atualmente, as compras estão mais controladas.

Quando o crédito amplia o acesso

Rodrigues afirma que a distinção social por meio do consumo existe há muito tempo. O acesso restrito à arte e à cultura, por exemplo, já funcionou como marcador de posição social. A diferença, segundo ele, é que o crédito e o parcelamento permitem hoje comprar bens de alto valor sem pagar todo o preço de uma vez.

Nesse contexto, a expressão pobreza de luxo passou a ser usada nas redes sociais para descrever situações em que alguém acessa bens e experiências associados a padrões de consumo mais altos, mas compromete a renda com parcelas e crédito. O parcelamento isoladamente não representa endividamento. O risco aparece quando compras sucessivas reduzem a capacidade de poupar ou de lidar com imprevistos.

Para o professor, o impacto não é apenas financeiro. A falta de reconhecimento dos pares por não saber usar certos objetos ou se comportar em determinados ambientes também pode produzir efeitos psicológicos, sociais e cognitivos.

No caso de Fernanda, as compras comprometeram sua vida financeira. Ela buscou acompanhamento com psicólogo e psiquiatra e passou a participar dos Devedores Anônimos, grupo voltado a pessoas que desejam interromper ciclos de endividamento. Também adotou um planejamento de gastos. Compras de até R$ 100 não precisam ser consultadas; acima desse valor, ela pergunta a uma terceira pessoa se o item é importante. O plano define limites, como R$ 150 para uma bolsa e R$ 100 para um sapato.

O papel das redes sociais

As redes sociais ampliaram a comparação. Além de vizinhos e familiares, as pessoas passaram a acompanhar viagens, carros, celulares, restaurantes e outros sinais de status de indivíduos de diferentes grupos e países.

Vera Rita afirma que essa exposição pode intensificar o comportamento de manada e afetar principalmente quem já se sente inseguro ou insatisfeito com a própria posição. Fernanda decidiu se afastar das redes porque considera difícil saber se a vida exibida por outra pessoa corresponde à sua situação financeira real. A comparação, segundo ela, pode ocorrer com alguém que também esteja endividado.

Texto produzido pela Redação Caderno Atual com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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