Plataformas que reproduzem compras, pedidos de comida e até pausas para fumar vêm ganhando usuários sem oferecer produtos ou serviços reais. A proposta é explorar a expectativa associada ao consumo e, em alguns casos, ajudar a interromper hábitos considerados automáticos.
A tendência apareceu na Coreia do Sul no primeiro semestre e se espalhou para outros países. Os sites receberam o nome de plataformas de dopamina em referência à substância química do cérebro associada à busca por recompensas. Alguns foram criados como brincadeira; outros procuram estimular a reflexão sobre consumo e tecnologia.
Projetos que transformam a compra em simulação
A estudante de engenharia mecânica Seohyun Park, de 21 anos, criou em março, em Seul, um site falso de entrega de comida. A página permite consultar cardápios e solicitar uma entrega que nunca chega. Depois, calcula o dinheiro e as calorias economizados.
Park afirmou que a ideia começou como um experimento lúdico. Ela havia percebido que consultar opções e fazer o pedido lhe dava mais prazer do que comer a refeição. O site recebe cerca de 10 mil visitantes por mês, segundo a criadora. Após ser divulgado na Coreia do Sul e em outros países, o projeto inspirou novas iniciativas.
Na Índia, Purvansh Parmar e Anshul Sharma, ambos de 26 anos e moradores do estado do Rajastão, desenvolveram uma cozinha de dopamina. A plataforma oferece entregas falsas acompanhadas de receitas reais. Lançada em junho, ela alcançou mais de 2,7 milhões de visualizações, de acordo com os criadores.
Os dois também criaram o Rewire Heaven, que permite aos usuários renunciar publicamente a um hábito e receber cobranças ou apoio de desconhecidos. Sharma contou que desistir da compra de um celular novo foi satisfatório para ele.
A Earth Day Canada lançou a Imaginair, uma loja de imitação voltada à discussão sobre consumo excessivo. Nos Estados Unidos, um desenvolvedor da Microsoft criou a Fake Haul, também como projeto pessoal.
A expectativa antes do consumo
Especialistas em economia comportamental descrevem essas experiências como uma forma de utilidade antecipatória: o prazer provocado pela expectativa de algo. Essa sensação pode se aproximar ou superar a satisfação obtida quando o desejo é concretizado e também a lembrança posterior do acontecimento.
Ravi Dhar, diretor do Yale Center for Customer Insights, afirmou que a espera concentra parte relevante do prazer e que, para algumas pessoas, a expectativa pode ser suficiente. Lingguo Xu, economista comportamental que pesquisa o tema na Universidade de Waterloo, no Canadá, pondera que o efeito pode perder força quando a simulação deixa de ser novidade. Para ele, a prática também pode intensificar o desejo de realizar o consumo.
Tecnologia e vínculos virtuais
A psiquiatra Anna Lembke, da Universidade Stanford, comparou os sites de dopamina à cerveja sem álcool. Autora de Nação Dopamina, livro de 2021, ela afirma que os dispositivos oferecem estímulos constantes e podem favorecer o consumo excessivo. Na avaliação de Lembke, as plataformas funcionam como mecanismos de autocontenção e podem ampliar a consciência sobre hábitos digitais.
Na Coreia do Sul, a desenvolvedora Seojin Ko criou o Damta World em novembro do ano passado. O site simula uma pausa para fumar: exibe um cigarro, uma contagem de bitucas e uma animação de fumaça e cinzas. Usuários também podem trocar mensagens que atravessam a tela.
Embora Ko não fume, ela disse que já havia acompanhado outras pessoas em pausas desse tipo. O site recebe cerca de 150 mil visitantes por mês. Segundo a desenvolvedora, usuários passaram a conversar sobre dificuldades no trabalho, na escola e no cotidiano, e alguns formaram amizades e começaram a se encontrar pessoalmente.
As relações criadas no ambiente virtual tiveram um efeito inesperado para Ko. Alguns usuários, porém, relataram que, ao se encontrarem, saíam para fumar um cigarro.


