EDIMBURGO E LONDRES — O volume de uísque escocês em processo de envelhecimento chegou a cerca de 1,4 bilhão de litros neste ano, ou 389 milhões de caixas. O estoque equivale a três anos de consumo nos níveis atuais e expõe o desequilíbrio entre a produção acumulada e a demanda, que perdeu força com a crise do custo de vida e mudanças nos hábitos de consumo.
A quantidade de bebida maturando em barris era inferior a 400 milhões de litros há uma década, segundo o boletim Commercial Spirits Intelligence, elaborado pelos especialistas Martin Purvis e Duncan McFadzean. O excesso levou diversas destilarias a cortar a produção em mais de um terço, conforme fontes do setor.
Pressão sobre as independentes
As empresas menores são as mais vulneráveis. Até um quarto das 160 destilarias da Escócia pode estar à venda, afirma McFadzean, que também dirige o banco de investimento Noble & Co. Bancos estão relutantes em ampliar os empréstimos, enquanto investidores estrangeiros avaliam ativos em dificuldades.
A Holyrood Distillery está entre as produtoras afetadas. A empresa suspendeu por tempo indeterminado a produção em seus dois alambiques de cobre, depois de meses de desaceleração da demanda. O cofundador Rob Carpenter afirma que a destilaria mantém 4.500 barris em envelhecimento, volume suficiente para sustentar lançamentos por algum tempo. “As pessoas estão sendo muito cautelosas com o que gastam”, diz.
Instalada em um antigo prédio ferroviário de 200 anos em Edimburgo, a Holyrood foi inaugurada em 2019, após investimento de quase 7 milhões de libras, equivalentes a cerca de R$ 48,5 milhões. No verão, a empresa recebeu visitantes para degustações durante a temporada de festivais, em um período de atividade comercial apesar das dificuldades na produção.
Mudança nos hábitos
O atual ciclo de excesso de oferta foi formado pela expansão da produção na década de 2010. As empresas encheram seus armazéns durante o crescimento do consumo na era da Covid, quando estímulos ampliaram a renda disponível e consumidores passaram a preparar coquetéis em casa. A demanda projetada, porém, não se confirmou.
A inflação reduziu o poder de compra e levou consumidores a trocar marcas conhecidas por bebidas mais baratas. A preocupação com a saúde, a disponibilidade de medicamentos para emagrecimento e a transferência de parte da socialização para o ambiente on-line também pesaram sobre o consumo.
Nos Estados Unidos, que responderam por 18% do valor das exportações de uísque escocês no ano passado, o consumo per capita de álcool ficou 11% abaixo do nível de 2019, segundo a IWSR. Entre os norte-americanos que disseram beber menos, 20% apontaram o custo como motivo, de acordo com a YouGov.
Analistas rejeitam, contudo, a ideia de que a menor demanda seja explicada principalmente pelo comportamento da geração Z. Para Laurence Whyatt, do Barclays, essa não é uma explicação central para a queda do volume. Jovens foram afetados pela crise do custo de vida e pelos confinamentos da Covid.
Busca por novos consumidores
A retração vem estimulando lançamentos que se afastam do foco tradicional do setor. Destilarias passaram a oferecer variedades mais doces e coquetéis prontos em lata. A Diageo lançou versões frutadas de Johnnie Walker e associou a marca à cantora Sabrina Carpenter para ampliar o alcance entre consumidores mais jovens e mulheres.
Grandes produtoras, como Diageo e Pernod Ricard, controlam mais da metade do mercado total de uísque escocês e têm maior capacidade financeira para atravessar a fase de baixa. As ações da Pernod, no entanto, recuaram cerca de 70% em relação ao pico de 2023.
A possibilidade de consolidação é discutida no setor, mas fusões e aquisições ainda foram relativamente raras porque compradores e vendedores não chegaram a um acordo sobre o valor dos ativos. Carpenter afirma que a Holyrood recebeu ofertas muito abaixo de suas expectativas.
Sinais de recuperação
Os investidores que mantêm uma visão positiva apostam no apelo do uísque em mercados externos, especialmente na Índia, e esperam que a demanda aumente com a recuperação da economia. As exportações no primeiro semestre de 2026 cresceram 6%, para 50 milhões de caixas, em comparação com o mesmo período do ano anterior. O valor exportado avançou 3%, segundo Mark Kent, diretor-presidente da Scotch Whisky Association.
Os Estados Unidos continuam como o mercado externo mais valioso, embora as exportações tenham caído 15% em volume entre maio e dezembro do ano passado. A partir de julho, o uísque passou a contar com isenção da tarifa de 10% aplicada pelo presidente Donald Trump a produtos britânicos.
A Diageo registrou aumento de US$ 463 milhões, para US$ 3,2 bilhões, no fluxo de caixa livre do exercício encerrado no fim de junho. A companhia mantém estoques de destilados em envelhecimento avaliados em US$ 8,5 bilhões, mais da metade formada por uísque escocês.
As destilarias escocesas também importam cerca de US$ 300 milhões por ano em barris americanos usados no envelhecimento. Para McFadzean, a combinação de maior volume exportado e custos menores pode indicar que a fase mais difícil ficou para trás.


