A taxa de desemprego ficou em 5,3% no trimestre encerrado em julho, o menor nível para esse intervalo de três meses desde o início da Pnad Contínua, em 2012. Ao mesmo tempo, uma análise baseada na regra de Sahm mostra que o mercado de trabalho brasileiro perdeu ritmo, mas ainda não atingiu o nível associado a uma recessão.
O indicador foi calculado pelo economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence, a partir de dados dessazonalizados do IBGE. Nos dois últimos meses avaliados, a diferença acompanhada pela métrica passou de 0,13 p.p. em junho para 0,12 p.p. em julho. O resultado ficou abaixo do limite de 0,3 ponto percentual usado na adaptação para o Brasil.
Como funciona a adaptação
Criada nos Estados Unidos pela economista Claudia Sahm, ex-Fed (Federal Reserve, o banco central americano), a regra compara a média móvel de três meses da taxa de desemprego com o menor nível observado nos 12 meses anteriores. Na versão americana, uma diferença de 0,5 ponto percentual ou mais pode indicar recessão.
Para o Brasil, Imaizumi utiliza um patamar de 0,3 ponto percentual. A escolha segue uma recomendação de publicação do Made (Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades), da USP (Universidade de São Paulo). A justificativa é que o limite menor pode identificar episódios recessivos no país com menor defasagem.
A adaptação considera características do mercado de trabalho brasileiro, entre elas uma informalidade maior do que a dos Estados Unidos. “O mercado de trabalho está em desaceleração, mas segue ainda resiliente, ainda forte”, afirma Imaizumi.
A série histórica usada no estudo reúne informações desde o final de 1995. De acordo com o economista, a diferença calculada pela regra estava negativa até fevereiro e se aproximou do limite de 0,3 ponto percentual nos meses posteriores. A estabilidade nos dois últimos meses, porém, interrompeu esse movimento de aproximação.
Limites do indicador
Imaizumi afirma que a resposta do emprego pode ocorrer com atraso no Brasil. A migração de vagas formais para informais, em vez de um aumento abrupto da taxa de desocupação, também pode dificultar a identificação imediata de uma recessão pela regra.
Não existe uma definição oficial única para recessão. Dois trimestres consecutivos de queda do PIB são usados por alguns economistas, mas institutos costumam considerar um conjunto mais amplo de informações. Por isso, o termo “recessão técnica” é considerado tecnicamente equivocado por muitos analistas.
No Brasil, a identificação dos ciclos é feita pelo Codace (Comitê de Datação de Ciclos Econômicos), ligado à FGV (Fundação Getulio Vargas). O comitê avalia indicadores de atividade e do mercado de trabalho. A regra de Sahm tem limitações, mas busca apontar sinais iniciais de uma crise com maior rapidez.
Segundo o Codace, a recessão mais recente ocorreu entre o primeiro e o segundo trimestre de 2020, durante a pandemia de Covid-19. Conforme a análise de Imaizumi, a diferença da regra superou 0,3 p.p. nesse período. O mesmo ocorreu na recessão anterior identificada pelo comitê, entre o segundo trimestre de 2014 e o quarto trimestre de 2016.
Renda e atividade econômica
A divulgação do desemprego ocorreu em 27 de agosto. Na média, o rendimento do trabalho foi de R$ 3.762 por mês no trimestre até julho, abaixo dos R$ 3.786 registrados no período encerrado em abril. A queda foi de 0,7%, considerada pelo IBGE dentro da margem de estabilidade, sem variação estatisticamente significativa.
Para Rodolpho Sartori, da consultoria Buysidebrazil, o mercado de trabalho parece ter alcançado o teto depois da recuperação dos últimos anos. O economista, contudo, não projeta uma recessão a partir de 2027 com base na desaceleração atual. Ele prevê crescimento de 1,9% do PIB em 2026 e de 1,6% no ano seguinte.
O PIB brasileiro cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, depois de avançar 1,1% nos três meses iniciais do ano. Os dados foram divulgados pelo IBGE em 1º de setembro. O resultado ocorreu em um ambiente de juros elevados para conter a inflação, e o desempenho do terceiro trimestre será divulgado em 2 de dezembro, depois das eleições.
Sartori aponta como incerteza a política fiscal que poderá ser adotada por Lula (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL) a partir de 2027. Os dois aparecem nas pesquisas de intenção de voto como favoritos para as eleições presidenciais de outubro. “É preciso melhorar o mercado de crédito, diminuindo a curva de juros, e é preciso melhorar as expectativas com um ajuste fiscal necessário, mas que tem de ser cuidadoso”, afirma.


