A Polícia Federal identificou acessos a processos sigilosos do Ministério Público Federal por um grupo ligado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. As consultas teriam sido feitas com credenciais funcionais de servidores do órgão, de acordo com relatório encaminhado ao Supremo Tribunal Federal.
As mensagens reunidas pelos investigadores mostram que Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, chamado de Sicário e identificado como Felipe Mourão nas conversas, enviava a Vorcaro resultados de pesquisas em sistemas internos. A PF afirma que ele fazia parte de A Turma, grupo descrito como uma suposta milícia usada para monitorar e intimidar pessoas vistas como adversárias ou relacionadas às investigações sobre o banco.
Mourão morreu na cela da Superintendência da PF de Minas Gerais em 4 de março, depois de ser preso durante uma operação. A morte foi confirmada dois dias depois. Segundo a PF, ele recebia R$ 1 milhão por mês por atividades que incluíam acesso a informações sigilosas, coação e elaboração de dossiês.
Consultas a sistemas do MPF
Em junho de 2024, Mourão encaminhou uma relação de pessoas e empresas a Vorcaro e disse que outros nomes poderiam ser incluídos para que fossem pesquisados em bases protegidas. Em outra conversa, perguntou quais documentos o então banqueiro queria. Vorcaro respondeu: “Todos, obviamente”.
No dia seguinte, Mourão afirmou que poderia buscar mais dados porque tinha “acesso total e ilimitado” aos sistemas do MPF, embora não soubesse por quanto tempo a possibilidade permaneceria disponível.
Parte dos arquivos enviados estava vinculada ao login funcional de uma servidora do MPF. O relatório registra que essa conta foi usada repetidamente para consultar processos, inclusive aqueles sob sigilo. Em 23 de julho de 2024, uma pesquisa feita com o CPF de Vorcaro encontrou 15 procedimentos relacionados a ele. Desse total, 11 eram sigilosos, e a consulta estava associada ao login de outro servidor.
A PF afirma que ainda precisa determinar se os próprios servidores fizeram as pesquisas, se forneceram suas credenciais ou se terceiros utilizaram as contas sem autorização. O relatório não atribui participação consciente aos titulares. Em um dos casos, os investigadores levantam a hipótese de que tenha havido tentativa de esconder a identidade do responsável pela consulta.
Em julho de 2025, Mourão teria compartilhado uma pesquisa com os termos “BRB AND MASTER”. Vorcaro respondeu: “Quero tudo. Atenção total”. Na sequência, Mourão disse que solicitaria uma busca ampla.
Documento sobre helicóptero
Outro episódio ocorreu em janeiro de 2025. Em 13 de janeiro, Vorcaro enviou a Mourão uma imagem de um helicóptero e relatou que a aeronave havia passado por sua casa na Bahia durante 40 minutos, na sexta-feira anterior, 10 de janeiro. Ele disse que pretendia registrar uma queixa formal.
Mourão afirmou que seria preciso identificar o responsável pela contratação e os ocupantes da aeronave. Depois, enviou um arquivo com identificação e brasão do MPF, classificado como “URGENTE/SIGILOSO” e destinado a uma empresa de serviços aéreos.
O documento solicitava o nome do contratante, os trajetos, os horários de decolagem e pouso e, se disponível, a relação de passageiros. Também pedia que a empresa não avisasse o contratante, sob a justificativa de preservar o andamento das investigações. O ofício não continha assinatura digital nem manuscrita.
Em 16 de janeiro, Mourão enviou a Vorcaro uma resposta atribuída à empresa. O texto mencionava o número do ofício e registrava que a solicitação havia sido recebida no dia 14. A empresa descreveu um voo inicial para verificar equipamentos, sem passageiros, e forneceu dados do contratante e dos itinerários de outro voo. Mourão então perguntou se também deveria buscar os nomes dos passageiros.
Para a PF, a resposta indica que o documento chegou à empresa. As páginas examinadas, porém, não confirmam a autenticidade da requisição pelo MPF nem registram autorização expressa de Vorcaro para o envio.
Na conclusão, os investigadores afirmam que o grupo acessava de maneira recorrente e irregular procedimentos sigilosos em andamento no MPF e em outros órgãos. A obtenção teria ocorrido por meio de contas funcionais de terceiros, extração de documentos e consultas sem autorização.
A divulgação dos documentos foi determinada pelo ministro André Mendonça, a pedido de Edson Fachin, presidente do STF. Mendonça retirou o sigilo de 14 procedimentos, além do processo principal, que originou os demais.


