PEQUIM — A Spirit AI usa trabalhadores equipados com sensores para reunir dados em residências e fábricas, numa tentativa de melhorar a capacidade dos robôs humanoides de lidar com situações variadas. A startup chinesa avalia que essa coleta no mundo real é necessária porque os modelos ainda enfrentam dificuldades com tarefas inéditas e movimentos de motricidade fina.
A empresa emprega cerca de 1.000 prestadores de serviços em todo o país. Em um centro de treinamento de dados em Pequim, dezenas de jovens repetem ações como abrir geladeiras, destravar cofres e cortar legumes para registrar movimentos destinados ao treinamento das máquinas. Em outras instalações, um gesto pode ser repetido mais de 50 vezes até atingir a precisão necessária.
Dados e limitações técnicas
A Spirit AI afirma ter obtido resultados melhores ao usar dados mais variados, mesmo quando apresentam imperfeições. A companhia depende principalmente de registros de atividades reais, enquanto concorrentes recorrem a simulações virtuais para reduzir o custo de treinamento.
Segundo Gao Yang, cofundador e cientista-chefe da Spirit AI, os simuladores funcionam bem com corpos rígidos, mas ainda têm problemas para representar objetos flexíveis, como cabos elétricos deformáveis. O executivo também é professor assistente de robótica na Universidade de Tsinghua.
“Os próximos um a dois anos marcam a janela inicial para aplicações industriais”, disse Gao. Ele prevê que robôs sejam usados em serviços comerciais para tarefas simples depois desse período, mas considera a entrada nas residências uma etapa mais difícil e distante.
A Spirit AI estima que um salto nos modelos de inteligência incorporada, comparável ao GPT-3.0 da OpenAI, que impulsionou o ChatGPT, possa ocorrer em meados de 2027. A empresa afirma que seus robôs atingiram taxa de sucesso de 90% em tarefas simples realizadas em ambientes estruturados de sala de estar.
Operação e expansão
Os avanços de hardware já permitem que humanoides chineses corram, dancem e executem saltos mortais para trás sob comando. O foco das empresas, porém, se deslocou para o software responsável pela inteligência e pela produtividade econômica em ambientes reais.
A Spirit AI mantém dezenas de robôs Moz1 com rodas em linhas de produção da fabricante de baterias CATL e da varejista JD.com, que também investe na startup. Fundada em 2024, a empresa tem 300 funcionários e levantou mais de US$ 670 milhões (R$ 3,44 bilhões). Sua avaliação atual é de 20 bilhões de iuanes (R$ 14,9 bilhões). Gao não comentou planos para uma oferta pública inicial de ações.
Para o executivo, “o cérebro é, de fato, o elo mais fraco em toda a cadeia da robótica”. A empresa calcula que a implantação de humanoides em residências ainda possa levar pelo menos oito anos.

