A decisão de criar um jornal para crianças começou a tomar forma depois de uma experiência vivida no 11 de Setembro. Naquele dia, uma profissional que trabalhava no mercado financeiro em Nova York estava no 4 World Trade Center quando os ataques começaram. Anos depois, ela deixou as finanças, mudou-se para São Paulo e lançou o Joca, voltado a crianças e adolescentes.
A fuga do World Trade Center
Em 11 de setembro de 2001, aos 29 anos, ela havia chegado cedo ao escritório do Deutsche Bank. O prédio ficava ao lado da Torre Sul e tinha pouca gente naquele horário. Perto de uma grande janela, percebeu uma vibração e um barulho muito forte quando o primeiro avião atingiu a Torre Norte. Ao olhar para trás, viu uma bola de fogo.
Mensagens de colegas orientaram a saída imediata. Ela desceu rapidamente pelas escadas e deixou no escritório a bolsa, o celular e as chaves. Sem compreender o que estava acontecendo, não sentia medo. Na calçada, perto das torres, viu papéis caindo do céu. Algumas pessoas chegaram a imaginar que fosse um acidente com um avião de acrobacia.
Durante cerca de 15 ou 20 minutos, permaneceu ali. O segundo avião provocou uma mudança na percepção do que ocorria. O som era muito forte, e, quando a aeronave atingiu a Torre Sul, começaram as explosões. Ela pensou que um avião estivesse sobrevoando o local e lançando bombas.
Sem conseguir entrar em prédios, porque as portas eram fechadas, correu em direção à St. Paul’s Chapel. Tinha saído do escritório de salto alto e já estava descalça. Ao olhar novamente para as torres, viu objetos caindo. Primeiro pensou que fossem cadeiras; depois entendeu que eram pessoas.
A preocupação seguinte foi avisar aos pais, no Brasil, que estava viva. Um telefone público não funcionou porque as linhas estavam congestionadas. Seguindo a orientação da polícia, entrou no metrô. Chegou à rua 81 e bateu à porta de uma vizinha, pois não conseguia entrar em casa. Quase quatro horas depois de deixar o World Trade Center, diante da televisão, compreendeu que as duas torres haviam desabado.
Uma mudança de caminho
A experiência fez crescer perguntas que ela já vinha formulando sobre a própria vida. Seis meses depois, decidiu fazer mestrado em Relações Internacionais na Universidade Columbia. Por algum tempo, manteve ligação com o setor financeiro, que considerava parte importante de sua formação e de sua história, mas passou a buscar um trabalho com propósito e impacto social.
Nascida na Alemanha, filha de pai alemão e mãe francesa, ela cresceu em contato com jornais e revistas para crianças. Essas publicações ampliaram sua visão de mundo, despertaram sua curiosidade e a ensinaram a buscar compreensão sobre os acontecimentos.
Em 2006, quando surgiu a oportunidade de voltar ao Brasil, mudou-se com a família para São Paulo. Após dificuldades e fracassos iniciais, lançou, em 2011, o Joca, apresentado como o primeiro jornal de atualidades feito para crianças e adolescentes do Brasil.
Informação para o público infantil
O projeto foi concebido como uma ferramenta para ajudar crianças a compreender o mundo. A proposta inclui estimular perguntas, dúvidas, busca por fontes confiáveis e distinção entre informação e desinformação. O objetivo é contribuir para que os leitores formem as próprias ideias.
Ao recordar a trajetória, ela também menciona mudanças de carreira, empreendedorismo, falência, erros e recomeços. Não considera que o sofrimento seja necessário para produzir algo positivo, mas afirma acreditar na capacidade de decidir o que fazer com as experiências vividas.
Para ela, o 11 de Setembro não apagou o medo, a dor ou as perdas. Com o tempo, porém, o acontecimento passou a ser visto como parte de um processo de reinvenção e como o início de um caminho que talvez não tivesse sido procurado de outra forma.


