A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) aprovou nesta quarta-feira (9) uma resolução que encaminha o Irã ao Conselho de Segurança da ONU por descumprimento de obrigações de transparência relacionadas ao programa nuclear. É a primeira decisão desse tipo da agência em 20 anos.
A proposta foi apresentada pelos Estados Unidos e recebeu apoio de aliados europeus no Conselho de Governadores da AIEA. A votação fechada terminou com 23 votos a favor, 8 abstenções, entre elas a do Brasil, e 3 votos contrários, de Rússia, China e Níger.
A agência é ligada à ONU, mas não está subordinada à organização e não pode impor penalidades. O envio da queixa amplia a pressão política sobre o governo iraniano, embora Rússia e China, que mantêm relações de aliança com Teerã, tenham poder de veto no Conselho de Segurança. Os dois países estão entre os 5 membros do colegiado com esse direito.
O Irã contestou a resolução e afirmou que os Estados Unidos buscam forçar o país a se render e entregar seu petróleo. A reação ocorreu enquanto eram registradas novas trocas pontuais de fogo entre os dois rivais no estreito de Hormuz, passagem que antes da guerra concentrava 20% do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo.
Inspeções e estoque de urânio
A decisão da AIEA está relacionada à interrupção das inspeções em instalações nucleares iranianas. As verificações eram previstas pela adesão do país ao Tratado de Não Proliferação Nuclear e pelo acordo firmado com os Estados Unidos e outros países em 2015. O então presidente americano Donald Trump retirou os Estados Unidos do acordo em 2018.
De acordo com a última estimativa da AIEA, o Irã acumulou 440,9 kg de urânio enriquecido a 60%. Segundo a agência, o material poderia ser usado para produzir ogivas nucleares rudimentares. Se enriquecido a 90%, poderia equipar até dez bombas de capacidade plena.
O diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, afirmou que nenhum outro país mantém estoque semelhante e que o material deixou de ser fiscalizado após ataques de Israel e dos Estados Unidos ao Irã em 2025. O governo iraniano diz que as inspeções não podem ser retomadas por causa da guerra. Grossi sustenta que a volta das verificações é necessária para confirmar que o país não está desenvolvendo uma bomba.
Um estudo do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, baseado em imagens de satélite, apontou aceleração nas obras da montanha da Picareta, perto de Natanz. O local abriga bunkers, laboratórios e centrífugas. Donald Trump ameaçou bombardear a área, o que exigiria bombas de penetração de solo lançadas por aeronaves B-2.
A AIEA também aprovou o encerramento de investigações sobre a Síria. O país havia sido acusado de manter um programa nuclear secreto durante o governo de Bashar al-Assad, derrubado em 2024. A agência informou que Damasco cumpriu as exigências relacionadas ao Tratado de Não Proliferação Nuclear, após o caso ter sido levado ao Conselho de Governadores em 2011.


