Meu Filho é um Musical retoma a trajetória de Paulo Gustavo a partir do humor, da memória e da representação de famílias e relações homoafetivas. A montagem apresenta o artista como alguém que enfrentou a homofobia por meio da exposição das contradições sociais e do riso, enquanto sua presença retorna ao palco por meio de atores, familiares e do elenco.
A peça também dialoga com episódios recentes de hostilidade contra pessoas LGBT+ em espaços públicos. Nesse contexto, a obra é apresentada como uma afirmação do direito de existir sem que corpos e desejos precisem ser justificados. A encenação desloca a imagem da arena, associada à violência, para um espaço em que personagens historicamente submetidos à caricatura podem contar suas próprias histórias.
Entre os responsáveis por esse retorno estão Fil Braz, Ju Amaral, Déa Lúcia, Beatriz Coelho, João Fonseca e os demais integrantes do espetáculo. João Pedro Chaseliov e Pierre Baitelli se alternam na interpretação de Paulo Gustavo. Stella Maria Rodrigues interpreta a mãe em uma cena marcada pela notícia da morte do filho, construída em diálogo com Tudo sobre Minha Mãe (1999), de Pedro Almodóvar.
A montagem articula riso, choro e reflexão ao tratar da morte de Paulo Gustavo e das vítimas da COVID-19. O espetáculo retoma a ideia de testemunho associada a Giorgio Agamben em O que resta de Auschwitz: o arquivo e a testemunha, segundo a qual quem permanece pode falar também por aqueles que já não conseguem fazê-lo. A cena transforma essa permanência em gesto teatral, por meio dos corpos que reconstroem memórias e experiências.
Cenografia entre tradição e reinvenção
O cenário de Nello Marrese remete às estruturas do teatro grego. Um frontão com três portais permite a entrada e a saída de plataformas que apresentam momentos distintos da vida de Paulo Gustavo. A solução é relacionada ao espetáculo francês Les Éphémères (2006), de Ariane Mnouchkine, do Théâtre du Soleil, pelas mudanças de tempo e de situação diante do público.
A referência ao teatro grego ganha outro sentido porque a montagem coloca no centro relações entre pessoas do mesmo sexo. O texto observa que experiências homoeróticas apareciam naquela tradição em contextos mitológicos, como em Os Mirmidões, de Ésquilo, ou sob a forma de sátira nas comédias de Aristófanes, mas não correspondiam à concepção contemporânea de vínculos afetivos homoafetivos.
Na sequência, o espaço cênico se converte em uma boate gay. Uma versão em português de Volare, de Domenico Modugno e Franco Migliacci, acompanha a descida do anjo de Paulo Gustavo por uma grande escada, diante de globos de espelhos. A passagem associa as boates a lugares de liberdade, nos quais pessoas impedidas de expressar seus desejos em público puderam dançar, criar formas de existência e assumir diferentes identidades.
O musical, roteirizado por Fil Braz, também amplia a representação de novos arranjos familiares no teatro musical brasileiro. A obra se insere em um movimento de narrativas gays presentes no cinema e nas plataformas de streaming, nas quais personagens LGBT+ passam a conduzir suas próprias histórias, para além da caricatura, da marginalidade e da tragédia.
Ao reunir a trajetória de Paulo Gustavo, a dor da perda, a memória familiar e a transformação dos espaços cênicos, Meu Filho é um Musical apresenta o palco como lugar de testemunho e continuidade. A peça encerra seu percurso em uma arena convertida em espaço de pertencimento, na qual o artista pode retornar para narrar a própria história.


