A descoberta de uma instalação clandestina no estado mexicano de Chihuahua voltou a evidenciar a dimensão da produção de metanfetamina no país. Localizado perto de Parral, o suposto laboratório poderia fabricar até 100 quilos da droga por dia.
A operação ocorreu em meados de setembro, em um momento de maior pressão dos Estados Unidos sobre o governo mexicano. Especialistas afirmam que, apesar do aumento das ações contra o narcotráfico, os cartéis vêm modificando os métodos de fabricação e distribuição para reduzir perdas e dificultar a fiscalização.
A governadora de Chihuahua, María Eugenia Campos, afirmou que a descoberta impediria a circulação de “Cem mil doses diárias de metanfetamina” no estado e nos Estados Unidos.
Estruturas menores e produção descentralizada
O analista político e especialista em segurança David Saucedo afirma que os grupos mexicanos passaram a investir em drogas sintéticas para diminuir a dependência da cocaína produzida na Colômbia. Os maiores cartéis construíram complexos clandestinos, enquanto organizações menores adotaram laboratórios rudimentares em áreas isoladas.
Segundo Saucedo, uma instalação como a de Chihuahua ocupava cerca de mil metros quadrados. Já estruturas menores podiam funcionar em espaços de apenas cinco metros quadrados, com maior facilidade para dispersar vapores tóxicos.
A pressão americana contra os chamados macrolaboratórios teria levado os grandes grupos a dividir a produção em unidades menores. Essa mudança reduziria o prejuízo em caso de apreensão e dificultaria a localização das operações.
Após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçar atacar laboratórios com mísseis, parte das cozinhas de drogas teria sido transferida para áreas urbanas. Na avaliação de Saucedo, a medida buscaria elevar o risco de vítimas civis e, com isso, aumentar o custo político de uma eventual ação americana.
P2P substitui dependência de medicamentos controlados
José Andrés Sumano Rodríguez, pesquisador do Colégio da Fronteira Norte, afirma que os produtores mexicanos dominaram o uso do P2P, precursor químico empregado na fabricação de metanfetamina. A mudança permitiu abandonar a dependência de medicamentos sujeitos a controle rígido no México, entre eles a pseudoefedrina.
No Brasil, a pseudoefedrina é permitida, mas a Anvisa controla seu uso e sua comercialização porque a substância pode ser empregada na produção ilegal de metanfetamina.
Sumano diz que o novo método utiliza insumos menos regulados e tem custo inferior. Ainda assim, a oferta de precursores químicos vindos da Ásia e de cozinheiros especializados continua sendo um ponto de restrição para os grupos criminosos.
Enquanto as mortes por overdose de fentanil apresentam redução nos Estados Unidos, a metanfetamina segue em expansão. O pesquisador relata maior disponibilidade, produtos de maior pureza e apreensões recordes. Para ele, o fechamento de laboratórios no México não reduziu a oferta nos Estados Unidos, e o consumo também cresceu no México.
Operações e limites dos números oficiais
O governo da presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, intensificou o combate ao narcotráfico. O secretário de Segurança, Omar García Harfuch, afirma que as forças mexicanas desmontaram 2.771 laboratórios clandestinos desde outubro de 2024.
Sumano avalia que o governo tem atuado mais do que em anos anteriores, mas defende ações concentradas no fornecimento de precursores químicos e na formação dos cozinheiros responsáveis pela fabricação das drogas.
Saucedo questiona a divulgação apenas do número de laboratórios fechados, sem estimativas sobre o total de instalações existentes. David Mora, analista sênior para o México do International Crisis Group, também recomenda cautela: os registros oficiais podem incluir depósitos, áreas de concentração e pontos de transporte, além de fábricas de metanfetamina.
Mora reconhece a importância das apreensões, mas afirma que é necessário verificar quantas descobertas resultam em prisões e quantas dessas prisões levam a investigações criminais capazes de atingir as redes de produção. Para ele, as ações contra os laboratórios precisam ser acompanhadas de investigações judiciais que alcancem toda a cadeia do narcotráfico.


