A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas foi marcada por críticas à capacidade da instituição de responder aos conflitos atuais e por propostas para reorganizar seu funcionamento. Líderes de diferentes países defenderam a continuidade da ONU, mas avaliaram que ela precisa mudar para preservar sua relevância.
Fundada em 1945, após a Segunda Guerra Mundial, a organização reúne 193 países, incluindo o Brasil. Há 80 anos, atua como instrumento internacional para regular conflitos e relações entre os países e é a principal instituição multilateral do planeta.
António Guterres, secretário-geral da ONU, afirmou que a estrutura atual não acompanha a distribuição de poder do mundo. “Nossas instituições e sistemas de governança global continuam a refletir as realidades de poder e os interesses de uma era amplamente ultrapassada. Esse é o desafio central diante de nós”, disse no discurso que abriu a Assembleia Geral, na última terça-feira (22).
Pressão sobre a organização
A ONU também enfrenta dificuldades financeiras. O governo dos Estados Unidos, responsável por mais de 20% do financiamento da instituição, vem reduzindo repasses e programas desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca, em janeiro do ano passado. Trump acusa a organização de ser enviesada e ineficaz.
Israel, Rússia e os próprios Estados Unidos têm ignorado resoluções do Conselho de Segurança e mandados de prisão internacional. Para a professora de relações internacionais da ESPM Denilde Holzhacker, o cenário representa uma ruptura e exige uma combinação de reforma e adaptação.
As tentativas anteriores, porém, não avançaram. A ONU é formada por um complexo de mais de 15 agências, além do secretariado, de conselhos, braços administrativos e tribunais. Segundo Holzhacker, as propostas de mudança foram engavetadas ou não saíram do lugar.
A próxima liderança da organização, que deve ser definida nas próximas semanas, terá de conduzir esse processo em meio à crise financeira. Guterres, que está à frente da ONU há quase uma década, deixará o cargo no fim deste ano.
Conselho de Segurança
O principal foco das propostas é o Conselho de Segurança, responsável por deliberações sobre guerras e conflitos. Dois de seus membros permanentes, Estados Unidos e Rússia, têm poder de veto e estão atualmente em guerra.
Guterres defendeu a entrada de países africanos como membros permanentes. A proposta depende da concordância dos cinco integrantes permanentes: Estados Unidos, China, Rússia, França e Inglaterra. A dificuldade de construir esse acordo é apontada como uma das razões para a paralisação do conselho diante das guerras atuais.
Denilde Holzhacker afirmou que os governos são responsáveis por conceder o mandato à ONU e que a falta de consenso também resulta da dificuldade dos Estados de cooperar. Para ela, a próxima liderança terá de equilibrar os interesses dos Estados Unidos, da China e do grupo do sul global.
Discursos dividem críticas e defesa
O presidente argentino, Javier Milei, classificou a ONU como inútil e parasita. Luiz Inácio Lula da Silva abriu seu discurso mencionando uma baixa recorde na credibilidade da organização. Emmanuel Macron criticou o que chamou de atuação inativa diante das mortes de civis na Faixa de Gaza, mas também pediu que os países não abandonem a instituição.
Edgars Rinkēvičs, presidente da Letônia, fez apelo semelhante. “Nós dividimos o mesmo barco, e, por isso, precisamos de algo que nos mantenha unidos. O bom é que já temos isso, a ONU”, afirmou.
O presidente do Panamá, José Raúl Molino, defendeu uma organização com mais diplomacia e capacidade para resolver conflitos. A avaliação de Holzhacker é que o debate central não se limita à sobrevivência da ONU, mas envolve a forma como ela será repensada para responder às mudanças no sistema internacional.


