A situação de Cuba se tornou mais vulnerável com o bloqueio imposto pelos Estados Unidos, enquanto tentativas de negociação envolvendo um neto de Raúl Castro perderam força. A avaliação é do jornalista Jon Lee Anderson, que acompanha a América Latina desde os anos 1980.
Anderson afirma que a ilha atravessa a pior de uma sequência de fases de abertura e fechamento nas relações com os Estados Unidos. O bloqueio, segundo ele, busca asfixiar o país e provocar mudanças. O jornalista diz que a medida já dura nove meses e tem afetado a população cubana.
Disputa em torno das negociações
Raúl Castro, de 95 anos, permanece como principal liderança política de Cuba, na avaliação de Anderson. Miguel Díaz-Canel é descrito como uma figura sem os poderes concentrados que Fidel Castro teve. Para o jornalista, a permanência de Raúl mantém uma referência histórica da Revolução Cubana, que tem 67 anos.
O jornalista afirma que houve conversas entre representantes dos Estados Unidos e um neto de Raúl, conhecido como Raulito. O diálogo incluiu emissários americanos, entre eles Marco Rubio, mas o processo foi enfraquecido por setores linha-dura do regime cubano e por políticos cubano-americanos de Miami contrários a qualquer acordo com um Castro.
Na avaliação de Anderson, o assunto deve permanecer parado até depois das eleições de meio de mandato americanas. Ele diz que o governo dos Estados Unidos não sabe com quem tratar em Cuba e que Raulito não tem respaldo institucional suficiente.
A morte de Raúl, considerada inevitável pelo jornalista, poderia abrir espaço para uma disputa entre outros integrantes da família e do regime. Anderson afirma que a saída da última figura icônica da revolução retiraria um componente espiritual da estrutura política cubana e poderia marcar o fim da era Castro.
Pressão sobre a América Latina
Para Anderson, a influência dos Estados Unidos sobre o destino de Cuba nunca foi tão grande. Ele também vê o continente americano submetido à personalidade e aos interesses de Donald Trump, colocados acima dos interesses nacionais.
O jornalista prevê a possibilidade de ações militares americanas diretas em diferentes países, justificadas pelo combate ao narcotráfico. Na avaliação dele, esse cenário ameaça o respeito à soberania entre as nações. Anderson afirma ainda que o Canadá vem sendo tratado como se fosse a Coreia do Norte.
Ele diz que políticos latino-americanos buscam a aprovação de Trump e podem ser atingidos caso passem a ser considerados adversários. O jornalista também questiona os erros da esquerda progressista, que, segundo ele, deixou de construir alternativas social-democratas coesas e permitiu o avanço da extrema direita populista.
Anderson cita como demandas centrais da população escolas, segurança, saúde acessível e moradia. Para ele, uma esquerda democrática deveria combinar capitalismo com um Estado voltado aos mais necessitados, mas ainda não há um movimento forte e unificado com esse perfil na América Latina.


