O presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, passou a ser alvo de críticas após divulgar vídeos em que aparece caminhando entre cadáveres de supostos guerrilheiros mortos em operações militares. As imagens reforçam a postura de combate ao crime que ele prometeu durante a campanha eleitoral, mas provocaram debate em um país marcado por décadas de conflito armado e violações cometidas por insurgentes, militares e paramilitares.
Na última quinta-feira (10/09), um juiz em Bogotá determinou que o presidente ocultasse temporariamente as publicações. A decisão foi tomada depois que as imagens receberam críticas de autoridades e representantes da oposição.
Uma das manifestações foi feita por Iris Marín, Defensora do Povo, cargo ligado ao Ministério Público da Colômbia. Para ela, o Estado e o governo não devem disputar demonstrações de crueldade. Marín também afirmou que a dignidade humana permanece mesmo depois da morte e que os símbolos associados ao poder público têm importância.
Mensagem de força
O primeiro vídeo foi divulgado após uma operação das forças militares em Guaviare, na qual 23 supostos integrantes dissidentes das Farc, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, e dois menores de idade foram mortos. O trecho em que Espriella caminha entre os corpos integra uma gravação de pouco mais de sete minutos, com detalhes sobre a operação e informações a respeito de insurgentes capturados e mortos.
Dois dias depois, o presidente publicou novas imagens feitas após uma operação em La Guajira, no norte do país. Na ação, morreram Naín Andrés Pérez Toncel, conhecido como Bendito Menor, sua companheira Angélica Tarazona, conhecida como La Bebecita, e outras duas pessoas.
Para o cientista político Carlos Cortés, a exposição dos cadáveres transmite uma mensagem de força e intimidação. A analista Elizabeth Dickinson, do International Crisis Group, avaliou que Espriella procura enfatizar uma narrativa ofensiva e apresentar o Estado como controlador dos criminosos.
A estratégia contrasta com a adotada pelo antecessor, Gustavo Petro, que buscou negociar com grupos armados para encerrar o conflito. Pesquisas de opinião citadas no debate indicam que a segurança e a ordem pública estão entre as principais preocupações de uma parcela significativa dos colombianos.
Desde o início da campanha, Espriella tem participado de eventos usando colete à prova de balas, atrás de púlpitos blindados e repetindo slogans contra o que chama de narcoterrorismo. A estrategista política Catalina Suárez disse que essa performance serve para mostrar que o presidente não se intimida e reforçar a imagem de homem forte associada à vitória eleitoral.
Reações e histórico
Parte dos apoiadores aprovou as publicações, enquanto cidadãos e opositores as condenaram. A senadora María José Pizarro, do Pacto Histórico, partido de Petro, classificou a divulgação como uma forma de necrofilia midiática. Claudia López, ex-prefeita de Bogotá e ex-candidata à Presidência, afirmou que o autoritarismo mafioso não respeita a vida nem a morte.
O ministro do Interior, Rodrigo Lara Restrepo, contestou a posição da Defensora do Povo. Ele disse que equiparar o Estado a gangues narcoterroristas seria um erro e defendeu que o governo cumpre o dever constitucional de combater criminosos responsáveis por ações de terror.
Dickinson afirmou que demonstrações desse tipo não são inéditas na Colômbia. Ela citou a circulação, durante a luta contra Escobar e os cartéis, da fotografia de Escobar morto próximo a policiais. A analista também mencionou imagens divulgadas pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele, e vídeos compartilhados pelo presidente americano Donald Trump sobre ataques contra embarcações supostamente ligadas ao narcotráfico.
Na avaliação de Dickinson, a exibição de força pode ter efeitos especialmente sensíveis em comunidades afetadas pelo conflito colombiano. Ela alertou que a ênfase no número de mortos já esteve associada, no passado, à morte de civis inocentes e ao aumento da violência estatal, embora tenha ressaltado que não afirmava que isso estivesse ocorrendo naquele momento.

