O mandato de António Guterres como secretário-geral da ONU termina em 31 de dezembro, após dez anos marcados por crises sucessivas e avaliações divergentes sobre seu desempenho. O português, 77, lidera sua última Assembleia-Geral, que reunirá chefes de Estado em Nova York a partir da próxima terça-feira (22).
Durante os dois períodos à frente das Nações Unidas, Guterres enfrentou a pandemia de Covid, a guerra na Ucrânia, a guerra em Gaza, a guerra no Irã, a emergência climática e os governos 1 e 2 de Donald Trump. O ex-presidente americano é descrito no texto como um dos maiores críticos do multilateralismo, princípio básico da organização.
Seus críticos afirmam que faltou firmeza na mediação de conflitos internacionais, considerada a principal função do secretário-geral. Diplomatas dizem que ele deixou de exercer esse papel em um momento de aumento no número de guerras. Guterres não mantém diálogo com a Rússia desde o início da invasão da Ucrânia e perdeu acesso a Israel após o começo das agressões em Gaza. O Ministério da Defesa israelense chegou a declará-lo persona non grata.
O secretário-geral contesta essa avaliação. Ele destaca a coordenação da iniciativa de grãos no mar Negro, que em 2022 permitiu à Ucrânia escoar sua produção agrícola durante os ataques russos. Também cita a viagem ao Chipre para tentar relançar o diálogo e reativar o processo de paz e reunificação da ilha dividida.
Continuidade institucional e crise orçamentária
Para Richard Gowan, diretor de assuntos e instituições globais da consultoria Crisis Group, “talvez o maior legado de Guterres seja o fato de a ONU continuar em funcionamento”. Segundo ele, a organização precisou reduzir a assistência humanitária e cortar operações de manutenção de paz por razões que não dependeram do secretário-geral.
A crise orçamentária levou à redução da ajuda em países como o Sudão do Sul, onde a assistência caiu 35% no ano passado em relação a 2024. Na Ucrânia, a redução foi de 30%; no Haiti, de 18%.
Gowan também avalia que Guterres poderá ser lembrado como um visionário por ter tentado colocar a inteligência artificial no centro das discussões dos países-membros. A ação climática foi outra prioridade de sua gestão. Maria Luiza Viotti, que foi chefe de gabinete de Guterres no primeiro mandato, afirma que ele buscou a mediação e iniciativas de diálogo diante da paralisia do Conselho de Segurança. Ela também diz que o secretário-geral mobilizou governos, empresas e sociedade civil por compromissos mais ambiciosos na transição energética.
Guterres defendeu repetidamente a reforma do Conselho de Segurança para ampliar o número de membros permanentes, uma reivindicação antiga do Brasil. Durante seu mandato, também foi criado o ONU80, iniciativa voltada à reorganização de braços da instituição, à melhoria da escolha de representantes e à valorização do multilateralismo.
Sucessão ainda sem definição
A eleição do sucessor depende de consenso entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança: Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido. Não há data precisa para a escolha. Existe um esforço para que uma mulher ocupe o cargo pela primeira vez, após nove homens.
O Brasil apoiou Guterres em 2016, mas neste ano havia declarado apoio à ex-presidente do Chile Michelle Bachelet, que anunciou neste sábado (19) sua desistência. Ainda não se sabe o que Guterres fará depois de deixar a ONU. Pessoas próximas dizem que ele pode dedicar mais tempo à família. Há também a possibilidade, considerada residual, de que seja convidado a permanecer por alguns meses caso a sucessão se complique.


