A divulgação de cerca de 170 mil páginas sobre a qualidade do ar após a queda das torres colocou novamente em discussão a forma como Nova York lidou com os riscos do 11 de Setembro. O material foi tornado público pelo governo de Zohran Mamdani como parte de um acordo que encerrou duas disputas judiciais pelo acesso aos registros.
Segundo a prefeitura, parlamentares e entidades que representam as vítimas, os documentos reforçam que as autoridades receberam alertas sobre os perigos da poeira tóxica enquanto incentivavam moradores, trabalhadores e empresas a retornar ao sul de Manhattan. Bombeiros, policiais, socorristas, civis e jornalistas que cobriam os acontecimentos foram expostos. Muitos desenvolveram doenças relacionadas ao contato com a poeira, e vários morreram anos depois.
O acervo também lança nova luz sobre a administração de Rudolph Giuliani, prefeito que se tornou símbolo da resposta imediata à tragédia. A mesma gestão, porém, não teria sido transparente sobre os riscos enfrentados por quem respirava o ar do Marco Zero.
Mamdani tinha nove anos no 11 de Setembro, vivia em Manhattan e cursava o ensino fundamental quando acompanhou o ataque. Em novembro de 2025, tornou-se o primeiro muçulmano eleito prefeito de Nova York. Sua presença no cargo seria difícil de imaginar no ambiente criado logo após os atentados.
Naquele período, a islamofobia apareceu quase imediatamente. A confusão entre o islã, religião seguida por cerca de 2 bilhões de pessoas, e a ideologia fundamentalista da Al Qaeda atingiu árabes e muçulmanos.
Uday Menon, consultor de tecnologia do JPMorgan nascido na Índia, foi algemado depois de comprar ingressos para um musical da Broadway. A atendente considerou seu nome, sotaque e perguntas sobre os assentos como sinais de uma possível ameaça de bomba. Menon vivia nos Estados Unidos desde 1986 e estava acompanhado da mulher, grávida de sete meses, quando foi cercado por quatro policiais e três agentes do FBI.
Muhammad Rafiq Butt, paquistanês de 55 anos, também foi denunciado sem relação comprovada com os ataques. O FBI teria concluído em 24 horas que não havia indícios de envolvimento, mas Butt permaneceu detido por questões migratórias e morreu de ataque cardíaco em um centro de detenção em Nova Jersey pouco mais de um mês depois.
A hostilidade continua presente. Mamdani foi chamado de terrorista, acusado de querer impor a sharia, ameaçado de deportação e associado ao 11 de Setembro sem base factual. Uma petição reuniu mais de 110 mil assinaturas para impedir sua participação na cerimônia do Marco Zero nesta sexta (11).
Também se distorceu o episódio envolvendo Ramzi Kassem, chefe da assessoria jurídica de Mamdani. O prefeito pediu que uma caneta usada em decretos relacionados à memória do atentado fosse entregue a Kassem. A partir daí, afirmou-se que o objeto havia sido dado ao advogado de um dos terroristas. Kassem nunca defendeu nenhum dos 19 sequestradores. Ele representou Ahmed al-Darbi, integrante da Al Qaeda que se declarou culpado pelo planejamento de outro atentado, cometido contra um petroleiro francês no Iêmen em 2002. Al-Darbi havia sido preso em junho de 2002, antes do ataque ocorrido em outubro.
A eleição de Mamdani não eliminou o preconceito, mas mostra a transformação política e social de Nova York. O prefeito também enfrenta acusações de antissemitismo, que rejeita, e defende propostas como congelamento de aluguéis, supermercados subsidiados e tarifa zero no transporte público, mantendo elevada popularidade na cidade.
No relato sobre a manhã dos ataques, o ar dos escombros era descrito como tomado por pó branco, fumaça preta e cheiro doce de queimado. Vinte anos depois, o percurso entre o East Village e o Marco Zero tinha outro odor, associado à maconha vendida em barracas na Union Square. Agora, passado um quarto de século, a cidade preserva mortos, doentes e contradições, mas também registra a eleição de um muçulmano para a prefeitura. A mudança passou a fazer parte da memória do atentado.


