A mudança de Portland para Muncie permitiu que Beyrouti comprasse a primeira casa, mantivesse o emprego remoto e passasse a economizar US$ 600 por mês. Mãe solo de dois filhos, ela recebeu US$ 5 mil de um programa criado para atrair moradores para a cidade de Indiana.
No ano passado, Beyrouti deixou a região metropolitana de Portland, com 2,5 milhões de habitantes, e percorreu cerca de 3,2 mil km em direção ao leste. Muncie tem 65 mil habitantes, universidade e áreas abertas. Ela afirmou que nunca tinha ouvido falar do município antes da mudança.
A trabalhadora continua empregada pelo mesmo banco e recebe salário anual de US$ 107 mil. Em Portland, pagava US$ 1.290 por mês pelo aluguel de um apartamento. Em Muncie, a prestação da casa, o seguro residencial e o imposto sobre a propriedade somam US$ 1,1 mil mensais.
A economia também veio da redução do imposto estadual sobre a renda, do seguro do carro e das contas de energia. “Consigo aproveitar mais a vida do que antes”, disse Beyrouti. Ela também relatou que passou a ter mais condições de atender aos pedidos dos filhos e que sua qualidade de vida melhorou.
Incentivos para novos moradores
Muncie oferece o benefício em dinheiro por meio do MakeMyMove, site que reúne programas de pequenas cidades e municípios dos Estados Unidos interessados em trabalhadores remotos de fora de Indiana. Os locais participantes pagam uma taxa de assinatura à plataforma.
Os incentivos variam entre dinheiro para a transferência e benefícios para o cotidiano, como ingressos de cinema, tíquetes para restaurantes e garrafas de vinho. Beyrouti e os filhos estão entre cerca de 100 famílias que chegaram a Muncie pelo programa.
O MakeMyMove afirma ter ajudado 1.000 pessoas a se mudar no ano passado e prevê alcançar 1.500 em 2026. Muncie registrou 65.466 habitantes no ano passado, ante 65.194 em 2020. O número ainda está abaixo dos 71.828 moradores contabilizados em 1990.
O movimento ocorre em um momento de pressão do custo de vida nos Estados Unidos. Relatório de 2025 da Associação Nacional de Corretores de Imóveis dos EUA apontou essa despesa como o principal motivo entre pessoas que mudaram de estado.
Nova York, Los Angeles e Portland tiveram redução populacional nos últimos anos. A maior aceitação do trabalho remoto desde a pandemia de covid-19 também contribuiu para a busca por municípios menores, alguns dos quais passaram a recuperar moradores após décadas de queda.
Uma segunda mudança para o interior
Em 2024, a cientista Elena Chrysostomou saiu de San Diego, na Califórnia, cuja região metropolitana tem mais de 3 milhões de habitantes, e foi para Jacksonville, no estado de Illinois. A cidade tem 17,7 mil habitantes e fica em uma área rural cuja maior cidade é Chicago.
A Jacksonville Regional Economic Development Corporation ofereceu US$ 5 mil e um pacote de qualidade de vida avaliado em US$ 4 mil. O conjunto incluía academia gratuita e passes para jogar golfe. A corporação afirmou que o programa torna a oferta de transferência mais atraente.
Chrysostomou pagava US$ 3 mil por mês pelo aluguel de um apartamento de um quarto em San Diego. Em Jacksonville, comprou uma casa de três quartos e passou a pagar US$ 1.868 mensais de financiamento imobiliário. Após trocar de emprego, seu salário aumentou 22%, enquanto o trajeto até o trabalho caiu de 15 minutos de carro para um minuto.
Ela afirmou que não imaginava conseguir comprar uma casa sozinha e passou a ter mais liberdade, segurança e independência.
As duas moradoras também apontam custos da adaptação. A vida nas cidades menores oferece menos opções de atividades e restaurantes, além de exigir distância maior de amigos e familiares. Beyrouti enfrentou ainda dificuldades para adaptar os filhos às novas escolas e passou a depender do carro para quase todos os deslocamentos, depois de viver em Portland perto de parques e lojas.
Mesmo assim, ela disse estar satisfeita, com a maior reserva financeira que já conseguiu reunir, uma casa própria e a possibilidade de viajar com os filhos. A família fez as primeiras férias da vida do filho caçula.
Efeitos sobre cidades latino-americanas
A migração de pessoas de grandes centros para locais menores também aparece na América latina, associada à continuidade do trabalho remoto e ao nomadismo digital. Diana Quintas, sócia da Fragomen no Brasil, afirmou que profissionais remunerados em moeda valorizada ou por empresas de regiões mais ricas procuram cidades de menor custo para morar ou passar longas temporadas.
Para Quintas, a América Latina atrai profissionais por combinar qualidade de vida e custo considerado atrativo para pessoas mais bem colocadas no mercado.
Isadora Guerreiro, coordenadora do Lab Cidade da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, afirmou que a chegada desse público pode elevar os aluguéis pagos pelos moradores locais. Ela relacionou o processo à gentrificação, marcada pela substituição de residentes por grupos de renda mais alta e pela valorização de bairros ou cidades.
Guerreiro também disse que proprietários corporativos, como empresas e fundos de investimento internacional, passam a definir preços com base no mercado internacional, distante da capacidade de pagamento dos moradores. Para ela, o movimento aprofunda a desigualdade urbana.


