O governo sul-coreano descartou qualquer participação militar na guerra no Irã liderada pelos Estados Unidos, enquanto avalia ampliar a atuação de uma força naval enviada para combater a pirataria na costa da Somália. O presidente Lee Jae-myung afirmou nesta sexta-feira (18) que o destróier e os navios de apoio poderão se aproximar do mar Vermelho ou do estreito de Hormuz apenas para proteger petroleiros sul-coreanos e outras embarcações comerciais.
“Não haverá envio de tropas nem de recursos militares para participar desta guerra ou intervir nela”, disse Lee em entrevista coletiva. Segundo o presidente, os meios navais não serão empregados em operações que possam ser interpretadas como apoio ao conflito.
A posição foi anunciada após Donald Trump pressionar publicamente Seul. No mês passado, o presidente americano afirmou ter pedido ajuda a Lee e mencionou a presença de tropas dos Estados Unidos na Península Coreana. Trump também reclamou da recusa sul-coreana em colaborar na defesa do estreito de Hormuz, descrito como a principal rota de trânsito de petróleo do mundo.
Pressão militar e aprovação em queda
A declaração de Lee ocorreu em meio a dificuldades políticas internas. Quinze meses após o início de seu único mandato de cinco anos, o índice de aprovação do presidente caiu para 37%. Entre os fatores citados estão problemas domésticos e as tensões com os Estados Unidos, principal aliado da Coreia do Sul.
No mês passado, Trump reduziu unilateralmente um dos exercícios militares conjuntos anuais com a Coreia do Sul. Ele classificou as manobras como caras e “totalmente inadequadas e hostis” à Coreia do Norte. Também afirmou que o país vizinho havia sido “não ameaçador e respeitoso” durante seu período no cargo e destacou sua “relação muito boa” com Kim Jong-un.
A oposição sul-coreana acusa Lee de tentar viabilizar uma emenda constitucional que permitiria a presidentes disputar um segundo mandato, possibilidade proibida pela Constituição atual. Lee disse apoiar uma revisão que autorizasse futuros presidentes a concorrer novamente, mas negou ter intenção de buscar a reeleição e classificou essa hipótese como “constitucionalmente impossível”.
O presidente também apoia a nomeação, pela Assembleia Nacional, de um promotor especial para investigar possíveis apurações criminais motivadas politicamente durante o governo de Yoon Suk-yeol. Lee, porém, afirmou não querer que esse investigador tenha poder para retirar acusações já apresentadas contra ele. Os processos incluem acusações de violação das leis eleitorais e indução ao perjúrio.
Acordo econômico em negociação
Lee afirmou ainda que seu governo mantém negociações intensas com Washington para implementar um acordo anunciado em novembro passado. Pelo pacto, Trump reduziu de 25% para 15% as tarifas incidentes sobre importantes produtos sul-coreanos exportados, incluindo automóveis.
O entendimento também prevê apoio americano aos esforços da Coreia do Sul para desenvolver submarinos de propulsão nuclear e enriquecer urânio para a geração civil de energia. Como parte do acordo, Lee se comprometeu a investir US$ 350 bilhões (R$ 1,8 trilhão) nos Estados Unidos. A execução, contudo, está paralisada por divergências sobre os detalhes.
A resistência a uma intervenção no Irã também considera a opinião pública. Uma pesquisa realizada neste mês apontou que 55% dos sul-coreanos são contrários ao envio de tropas, enquanto 32% apoiam a medida.
A última participação de forças sul-coreanas em uma guerra liderada pelos Estados Unidos ocorreu no Iraque, em 2003. A decisão do governo de Roh Moo-hyun provocou reação interna, apesar de o contingente ser composto principalmente por unidades de engenharia e médicas, e prejudicou de forma permanente seus índices de aprovação.


