Os Estados Unidos chegaram a preparar uma operação aérea contra os houthis no Iêmen, mas Donald Trump recuou no domingo (20), quando a missão estava próxima de começar. Comandantes já haviam aprovado os alvos, e militares colocavam bombas em aviões selecionados para os ataques, segundo duas pessoas informadas sobre o planejamento.
A decisão veio após semanas de hesitação do presidente diante dos pedidos da Arábia Saudita. Na quinta-feira (17), o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman telefonou a Trump para pedir uma intervenção contra os houthis, que avançavam contra o reino, segundo autoridades do governo. Um dia antes, Trump havia dito a assessores que não apoiava os ataques. Depois da conversa, porém, ordenou ao Pentágono que se preparasse para uma ofensiva aérea.
No domingo, autoridades afirmaram que os Estados Unidos não atacariam o grupo, pelo menos naquele momento. Elas não foram autorizadas a discutir o planejamento militar e falaram sob condição de anonimato. A Casa Branca não comentou oficialmente as deliberações. Uma autoridade graduada declarou que “os Estados Unidos têm um acordo de defesa com a Arábia Saudita e sempre defenderão seus aliados”.
Pressão militar e limites da operação
Parte do círculo próximo de Trump se opunha ou demonstrava ceticismo em relação à entrada dos americanos no conflito saudita contra os houthis. As Forças Armadas dos Estados Unidos já enfrentavam pressão na guerra contra o Irã, iniciada por Trump e ainda sem encerramento.
Em uma conversa telefônica com a Fox News, Trump afirmou estar em “modo de decisão” sobre a guerra mais ampla contra o Irã. A respeito dos houthis, disse que os dois lados mantinham comunicação constante e que o grupo havia concordado, até então, em não atacar americanos.
O impasse decorre do fato de os houthis não terem investido contra navios americanos, mas terem atacado a Arábia Saudita. Autoridades militares dos Estados Unidos avaliam que o apoio saudita é necessário na guerra contra o Irã. Em maio, entretanto, o reino negou a Washington autorização para usar seu espaço aéreo e bases aéreas americanas no país, o que praticamente inviabilizou um plano de escolta de petroleiros pelo estreito de Hormuz.
Uma eventual ofensiva poderia acompanhar uma operação terrestre de tropas do governo iemenita, embora essas forças tenham sido consideradas ineficazes contra os houthis. O grupo combate desde 2014 o governo do Iêmen reconhecido internacionalmente, apoiado pela Arábia Saudita. Após uma trégua em 2022, os houthis voltaram a atacar embarcações sauditas e declararam um bloqueio à navegação do reino no mar Vermelho.
Os houthis também conquistaram áreas próximas ao estreito de Bab el-Mandeb, ponto estratégico do mar Vermelho. Diplomatas e comandantes americanos, atuais e antigos, questionam se bombardeios limitados conseguiriam forçar o grupo a negociar. Eles também duvidam da capacidade da força terrestre iemenita, que se desintegrou no primeiro grande confronto recente.
Em 2025, os Estados Unidos bombardearam posições houthis por mais de 50 dias. A campanha atingiu mais de mil alvos, incluindo radares, sistemas de defesa aérea, instalações de mísseis balísticos, locais de lançamento de drones e uma unidade de fabricação de drones nas proximidades de Sanaa, capital do Iêmen.
Os ataques consumiram cerca de US$ 1 bilhão (R$ 5,2 bilhões) em armas e munições apenas no primeiro mês. Dois caças F/A-18 Super Hornets, avaliados em US$ 67 milhões (R$ 345,5 milhões) cada, caíram no mar durante a operação.
Trump anunciou um cessar-fogo menos de dois meses depois do início da campanha. Os houthis deixaram de disparar contra navios americanos, mas uma autoridade alertou que isso poderia mudar se os bombardeios fossem retomados. Desde então, o grupo recompôs parte de sua capacidade e passou a usar inteligência artificial no desenvolvimento de novos mísseis.


