WASHINGTON — A visita de Estado de Xi Jinping aos Estados Unidos ocorre sob forte aparato protocolar, mas analistas políticos avaliam que há poucas perspectivas de avanços significativos nas principais disputas entre Washington e Pequim. O presidente Donald Trump recebeu o dirigente chinês nesta quarta-feira (23), em uma agenda que inclui cerimônias oficiais e novos encontros entre os dois governos.
A reunião é a terceira entre Trump e Xi em 11 meses. Os dois já haviam se encontrado em Busan, na Coreia do Sul, em outubro de 2025, e em Pequim, em maio deste ano. Outros dois compromissos estão previstos para este ano: em novembro, durante a reunião de líderes da Apec, em Shenzhen, e em dezembro, no G20, em Miami.
Tarifas e terras raras
A trégua tarifária firmada pelos dois países está entre os temas mais imediatos. O acordo expira em 10 de novembro. Rush Doshi, especialista em China do CFR, afirmou que Pequim busca prolongar a medida até o fim do mandato de Trump. O representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, considera aceitável uma extensão de três a seis meses.
As terras raras também estão no centro das conversas. Doshi disse, citando autoridades americanas, que o governo Trump avalia que a China cumpriu apenas parte dos compromissos assumidos nesse setor. Autoridades dos Estados Unidos tentam definir se as restrições que permanecem resultam de problemas de implementação ou de uma decisão deliberada de Pequim.
Na avaliação do analista, a capacidade chinesa de limitar exportações de terras raras em resposta às tarifas americanas ampliou o poder de negociação de Pequim e contribuiu para a redução da pressão tarifária por Washington.
Doshi considera mais prováveis uma extensão temporária da trégua comercial, compras chinesas de produtos agrícolas e energia dos Estados Unidos e avanços em um diálogo sobre inteligência artificial. Uma análise do CSIS afirma que Washington pretende acelerar, principalmente, as compras chinesas de soja e carne bovina nas semanas anteriores às eleições de meio de mandato, marcadas para novembro.
Cerimônias em Washington
Xi desembarcou na base militar Andrews, em Maryland, para sua primeira visita de Estado a Washington em mais de uma década. Trump foi ao local para recebê-lo, embora presidentes americanos normalmente aguardem líderes estrangeiros na Casa Branca. O republicano adotou procedimento semelhante em agosto de 2025, ao encontrar Vladimir Putin na pista da base Elmendorf-Richardson, no Alasca.
A programação inclui tapete vermelho e uma série de eventos. Na quinta-feira (24), a recepção na Casa Branca terá apresentações militares e a passagem de um bombardeiro B-2 Spirit acompanhada por quatro caças F-22 Raptor. Mais tarde, Trump e a primeira-dama, Melania, receberão Xi e a primeira-dama chinesa, Peng Liyuan, para um jantar de Estado.
O momento da chegada não foi transmitido ao vivo por CNN, Fox News ou MS Now, embora equipes das três emissoras estivessem no evento. A ausência ocorreu em meio a uma disputa judicial sobre a restrição de acesso de jornalistas de determinados veículos às dependências da Casa Branca.
Na segunda, a CNN foi retirada da função de representante do pool de imprensa responsável pela cobertura televisiva da Casa Branca. Depois disso, as principais redes de televisão concordaram em suspender a cobertura conjunta dos compromissos presidenciais.
Cálculo político de Pequim
A relação entre Trump e Xi continua marcada por conflitos iniciados com o tarifaço do ano passado e por insinuações, sem provas, de que a China teria interferido nas eleições de 2020, vencidas por Joe Biden. Trump não reconhece a derrota.
Para o CSIS, Pequim busca apresentar a China como uma potência em condição de igualdade com os Estados Unidos e destacar o peso da relação pessoal entre os dois líderes para a estabilidade bilateral. Doshi afirmou que autoridades chinesas veem a fase atual como favorável a Pequim e acreditam que o país segue ampliando sua força relativa na competição com Washington.
A análise do CSIS também aponta que Pequim considera Trump mais pressionado politicamente do que durante sua visita à China, em maio. Autoridades chinesas acompanham sua queda de popularidade antes das eleições de meio de mandato e avaliam que o conflito com o Irã e as tensões dos Estados Unidos com aliados enfraqueceram a posição americana.


