A resolução aprovada pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) recebeu 164 votos favoráveis e apenas um contrário: o dos Estados Unidos. Estônia, Geórgia, Lituânia, Moldávia, Sérvia e Ucrânia se abstiveram.
A iniciativa, chamada de “Corrija o mapa”, recomenda que governos, organizações internacionais e outras instituições considerem projeções cartográficas capazes de representar os continentes de maneira mais próxima de suas dimensões reais. A decisão não determina o abandono imediato da projeção de Mercator.
A justificativa apresentada pelos Estados Unidos
A proposta foi rejeitada pelos Estados Unidos sob o argumento de que faria parte de um projeto ideológico mais amplo. Yaryna Ferencevych, vice-representante americana no Conselho Econômico e Social da ONU, leu a posição do país em plenário: “Embora essa iniciativa seja apresentada como um esforço inócuo para atualizar proporções cartográficas, os Estados Unidos claramente percebem que ela não pode ser dissociada do projeto ideológico muito mais amplo e radical do qual faz parte”.
Ferencevych não detalhou qual seria esse projeto. O governo Trump costuma recorrer à ideia de uma “guerra cultural” ao tratar de pautas que ampliam a visibilidade de países fora do Ocidente.
A posição americana ocorre em um período em que o governo também utiliza referências geográficas em decisões de projeção de poder. Ao assumir a Casa Branca para seu segundo mandato, Trump renomeou o Golfo do México como Golfo da América. México e outros países não adotaram a mesma denominação.
Na ocasião, o governo dos Estados Unidos afirmou que o órgão promovia causas sociais e culturais polarizadoras e mantinha atenção desproporcional aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, descritos como uma agenda ideológica e globalista de desenvolvimento internacional contrária à política externa “America First”.
O que muda na representação dos continentes
A projeção de Mercator é usada tradicionalmente em documentos e livros escolares. Nela, regiões próximas aos polos aparecem visualmente maiores do que são, enquanto áreas próximas à linha do Equador ficam proporcionalmente reduzidas. Países africanos se opuseram a essa representação porque ela faz seus territórios parecerem menores em comparação com os europeus.
Com apoio da União Africana, a iniciativa foi liderada por Togo. Robert Dussey, ministro das Relações Exteriores do país, afirmou antes da votação que a decisão representaria uma defesa da “verdade científica”. Para ele, o debate não se limita à cartografia e envolve também a forma como povos e territórios são percebidos.
A resolução sustenta que os mapas não servem apenas para localizar países e continentes. Eles influenciam a maneira como as pessoas compreendem o mundo e podem produzir efeitos cognitivos, educacionais, culturais e geopolíticos. O texto afirma que a manutenção de representações distorcidas pode perpetuar uma visão desequilibrada entre diferentes regiões.
A alternativa apoiada pelo projeto é a projeção “Terra Igual”, adotada pela União Africana. O modelo busca preservar melhor as proporções entre os continentes e representar com maior precisão as áreas das diferentes regiões do planeta. A resolução também relaciona a iniciativa ao Pacto para o Futuro, aprovado pelos países-membros da ONU em 2024, que prevê ações contra desigualdades históricas e estruturais.
A França começou a usar o mapa Eckert IV, cuja escala é semelhante à do projeto “Corrija o mapa”.


