Fernando Pessoa escreveu sobre Mário de Sá-Carneiro na revista Athena, em novembro de 1924, oito anos depois da morte do amigo em Paris. Os dois mantinham correspondência desde 1912 e haviam fundado a revista Orpheu. O texto do poeta parte da ideia de que os deuses amam quem morre jovem e desenvolve uma reflexão sobre genialidade, incompreensão e julgamento.
Pessoa sustenta que o gênio vive entre a consciência da beleza perecível e o limite do conhecimento. Também compara o inovador a Cassandra: alguém que anuncia uma verdade, mas não é reconhecido porque o público ainda não dispõe de critérios para compreender o que não tem nome. Na etapa final, o poeta afirma que a grandeza, em seu tempo, se tornou uma forma de punição, enquanto a multidão e o espetáculo determinam o que deve ser valorizado.
A regra contra a aclamação
A reflexão pode ser lida como uma teoria da decisão. Quando o julgamento ocorre por aclamação, prevalece quem fala mais alto. A grandeza, que requer leitura demorada, perde espaço para aquilo que pode ser entendido imediatamente.
O contraditório aparece como resposta institucional a essa lógica. Nos tribunais, cada parte deve ter tempo, forma e possibilidade de escuta, independentemente de sua posição. A regra não depende de admiração nem exige que alguém seja considerado excepcional para assegurar tratamento igual.
Márcio Chaer fundou a ConJur em 1997 e, conforme registra a própria publicação, conduziu a revista na cobertura especializada do Judiciário. O ministro Fachin descreve a ConJur como um espaço aberto ao pluralismo de ideias e ao debate crítico. Essas descrições apontam para um procedimento: manter a possibilidade de posições diferentes, sem substituir o debate pela aclamação.
O autor do texto afirma escrever na ConJur desde 2012, sob essa regra, e agradece a Chaer por tê-la preservado. O legado, nessa leitura, está na continuidade de uma prática: publicar textos sem exigir concordância, aceitar o contraditório e dar espaço à resposta. A regra se mantém enquanto for utilizada por quem pensa e escreve livremente.


