A coligação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o Partido dos Trabalhadores pediram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Supremo Tribunal Federal (STF) a investigação de uma suposta interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras. As petições foram protocoladas na quarta-feira (23/9) e relacionam a possível atuação estrangeira ao interesse por minerais críticos e terras raras.
No TSE, o caso foi apresentado como ação de investigação judicial eleitoral. A alegação é de abuso de poder econômico em favor de Flávio Bolsonaro, com possível participação de seu irmão, Eduardo. A suspeita é que uma organização americana esteja financiando indiretamente a campanha por meio de uma empresa ligada ao empresário brasileiro Pedro Sang.
No STF, o pedido foi feito na ADPF 1.178, processo em que o tribunal limitou a eficácia interna de atos unilaterais estrangeiros. O PT solicitou a abertura de inquérito para apurar indícios de execução interna desses atos, o que poderia contrariar decisão anterior. Entre os fatos apontados está a possível promessa de acesso a terras raras em troca de influência no processo eleitoral.
Minerais e contatos políticos
As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos usados na produção de componentes eletrônicos. Embora não sejam exatamente escassas, estão dispersas e exigem processos complexos, poluentes e caros para extração e separação. Os Estados Unidos têm buscado ampliar a produção desses elementos em outros países para reduzir a dependência da indústria chinesa.
De acordo com as petições, a referência às terras raras aparece em um memorando estratégico produzido em março por André Marinho, humorista e candidato ao governo do Rio de Janeiro pelo Novo. Filho de Paulo Marinho, suplente de Flávio no Senado, ele teria elaborado diretrizes para uma parceria entre Brasil e Estados Unidos voltada à exploração de minerais críticos em eventual governo de Flávio Bolsonaro.
Poucos dias depois, Flávio declarou, durante uma conferência de políticos conservadores nos Estados Unidos, que “o Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras-raras e minerais críticos”. Em abril, André Marinho foi recebido por J.D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos e cofundador da Rockbridge, organização privada que capta recursos para campanhas e movimentos alinhados à agenda republicana e conservadora.
Em maio, a Rockbridge Brazil LLC foi registrada no estado do Wyoming, nos Estados Unidos, com Chris Applegate, assessor de J.D. Vance, como organizer. No mesmo mês, foi registrada a Sng Consult Empresarial, de Pedro Sang. A coligação de Lula e o PT afirmam que Sang atua como operador da Rockbridge no Brasil e que sua relação com a organização americana começou por intermédio de André Marinho, durante uma visita aos Estados Unidos para um evento em outubro de 2025.
Sang trabalha presencialmente no comitê central da campanha de Flávio Bolsonaro, em São Paulo. Segundo a petição, ele negou a existência de financiamento direto da Rockbridge, mas não informou quem remunera sua atuação profissional. Para Angelo Ferraro, coordenador jurídico da campanha de Lula, é necessário esclarecer a origem dos recursos, a atuação de agentes estrangeiros e eventuais benefícios eleitorais.
A suspeita, no âmbito eleitoral, envolve possível doação estimável em dinheiro de fonte estrangeira, proibida pela legislação eleitoral. No STF, os pedidos também mencionam possível violação da soberania nacional e do regime democrático, além de eventual descumprimento de ordem judicial do ministro Flávio Dino.
Renan Santos, candidato à Presidência pelo Missão, afirmou ter documentos sobre financiamento estrangeiro de campanha. Segundo ele, a operação teria sido intermediada pela Rockbridge, por Pedro Sang e por Tallis Gomes, empresário ligado à entidade americana que negou publicamente arrecadação financeira formal para a campanha. As acusações foram feitas em 11 de setembro. A petição apresentada pela coligação de Lula tramita sob segredo de Justiça no TSE, com o número 0601985-38.2026.6.00.0000.


