Leonardo Padura transforma o assassinato de Trotsky em eixo de um romance histórico sobre a perversão de uma utopia. Publicado no Brasil pela Boitempo em 2015, O Homem que Amava os Cachorros combina acontecimentos históricos, memórias de narradores e a trajetória de personagens marcados pelo fanatismo político.
A narrativa se espalha por Havana, Moscou, Cidade do México, Oslo, Istambul, Barcelona e Madrid. Nesse percurso, o escritor cubano examina o desmanche da utopia soviética e as promessas de uma ordem futura baseada na igualdade. A história também alcança a decadência de Cuba após o fracasso da União Soviética.
Trotsky e Mercader
Trotsky, nascido Liev Davidovich Bronstein (1879-1940), aparece ao lado de Josef Stálin (1878-1953), apresentado como um dos personagens mais cruéis do livro. Padura descreve a ascensão e a queda de Stálin, seus crimes, as mentiras e o que identifica como a miopia da esquerda.
Outro núcleo importante é a vida de Ramón Mercader (1913-1978), assassino de Trotsky. Nascido em Barcelona, Mercader viveu muitos anos preso no México e morreu em Havana. Catalão e adversário de Francisco Franco, lutou na Guerra Civil espanhola ao lado dos republicanos. No livro, sua trajetória é associada à figura do revolucionário permanente e à obsessão pela revolução.
A cena do assassinato recebe tratamento próximo ao romance policial, gênero pelo qual Padura é conhecido. O escritor criou o detetive Mário Conde, um policial desiludido, personagem de outros livros, como Passado Perfeito, Ventos de Quaresma, Paisagem de Outono, A Transparência do Tempo e Pessoas Decentes.
O título remete ao afeto por cães compartilhado por Mercader, Trotsky e Iván, o primeiro narrador. A amizade entre Daniel Fonseca Ledeira e Iván Cárdenas, os dois narradores considerados ficcionais, também ocupa lugar na construção do romance.
Padura não apresenta uma história alternativa, mas enfatiza a realidade e a versão dos perdedores. A relação de Trotsky com o pintor Primo de Rivera e com Frida Kahlo integra esse mundo de ilusões perdidas. O resultado é um relato sobre humilhações, falsos engenheiros sociais e a transformação da política em patologia. A experiência do autor com a realidade cubana e sua permanência em Havana atravessam essa leitura histórica.


