Em Ir até Havana, Leonardo Padura faz da capital cubana o centro de uma reflexão sobre cidades, memória e política. O livro acompanha as transformações de Havana desde 1959 e descreve o enfraquecimento de uma cidade que já foi apresentada como a Nice da América, próxima do modelo de Miami.
Padura não trata Havana apenas como cenário. Para ele, a cidade se comporta como um organismo: nasce, cresce, adoece, desaparece e pode renascer. As camadas de arquitetura, experiência e memória fazem com que ninguém percorra exatamente a mesma cidade duas vezes. A ideia vale para Havana e também para centros urbanos como São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Brasília.
Uma cidade em transformação
O livro apresenta o desfazimento de Havana e, com ele, a perda de parte de uma cultura descrita como exuberante. A tentativa de construir um homem novo, livre dos valores burgueses, teria produzido uma realidade marcada pela falta de bens básicos e pela deterioração do espaço urbano.
Depois da queda da União Soviética, segundo a análise atribuída a Padura, faltavam tinta, tijolos e madeira. A escassez alterava não apenas a aparência da cidade, mas também as relações entre seus habitantes. Um parafuso adquiria valor incomensurável, os objetos se tornavam motivo de disputa e o senso de comunidade se enfraquecia.
A situação expõe um paradoxo da cidade socialista: o projeto que pretendia organizar a vida coletiva teria contribuído para o desaparecimento de uma parte da urbanidade. A degradação material vinha acompanhada de comportamentos descritos como próximos de estágios pré-civilizatórios.
O escritor e a cidade
Nascido em 1955, Padura acompanhou o desmonte de uma Havana que considera sua. Ele recebeu passaporte espanhol e viaja, mas continua retornando à cidade. Questionado sobre por que não deixa Cuba, responde que os temas de sua literatura são cubanos e que não encontraria a mesma substância narrativa fora da ilha.
Sua posição combina crítica ao regime e permanência em Cuba. Padura não se apresenta necessariamente como dissidente e afirma amar o país de modo obstinado. Essa relação dá peso às observações sobre Havana, porque o escritor fala de uma cidade da qual se reconhece como parte.
No encerramento do livro, ele escreve que “como qualquer organismo vivo, as cidades reclamam afetos”. A frase resume a relação entre a deterioração urbana e o sentimento de pertencimento. A cidade não é apenas um conjunto de construções: também reúne hábitos, vínculos e lembranças.
A leitura de Ir até Havana pode ser entendida como uma reflexão de ciência política. A pólis é apresentada como o espaço em que as pessoas convivem e se organizam. Ao mostrar a transformação de Havana, Padura descreve os efeitos concretos de uma utopia persistente sobre a cidade e sobre os cubanos que continuam vivendo nela.


