Em A Elegância do Ouriço, Muriel Barbery concentra em um prédio luxuoso de Paris, com oito apartamentos, uma reflexão sobre diferenças sociais, cultura, amizade e sentido da existência. Publicado em 2006, o romance acompanha personagens que rompem as convenções mantidas pelos moradores e revelam dimensões ocultas de suas vidas.
A figura central é a concierge, uma espécie de administradora e porteira responsável pelo cuidado do edifício. Viúva, com 54 anos e integrante de uma família humilde do interior da França, ela trabalha há 27 anos no local. Diante dos moradores, sustenta a aparência de uma mulher rude, ignorante e mal-humorada. Por trás desse comportamento, porém, mantém uma formação cultural ampla, com conhecimentos de literatura, filosofia, música, cinema, história e psicologia.
A personagem lê haicais, ouve Mahler, acompanha autores russos e conversa sobre Morte em Veneza, de Thomas Mann. A distância entre sua imagem exterior e sua erudição explica a metáfora do título: como um ouriço, ela parece dura por fora, mas guarda delicadeza em seu interior. A própria dimensão dessa cultura provoca dúvidas no leitor, já que a construção apresenta certo exagero.
A segunda personagem central é uma menina superdotada de 12 anos. Ela estuda japonês, lê mangás e vive em conflito com a irmã, que é universitária, e com os pais, descritos como pessoas de esquerda. Desencantada com a vida, planeja o suicídio, desafia os professores e enfrenta a família.
Amizade e ruptura das convenções
As duas personagens servem à crítica do esnobismo e da falta de vitalidade atribuídos a parte da intelectualidade francesa. O romance também aborda a luta de classes em um espaço restrito, as diferenças culturais e a oposição entre elegância e vulgaridade.
A chegada de um culto e elegante japonês, após a morte e a venda de um apartamento, altera a dinâmica do prédio. Em uma conversa inicial, ele percebe a sofisticação intelectual da concierge. Os dois se tornam amigos, assim como ela e a menina. Essas relações atravessam as barreiras sociais do edifício sem recorrer a romantização e funcionam como eixo de transformação da narrativa.


