A aprovação da tese pela banca da Universidade de Brasília marcou a conclusão do doutorado em direito de Vercilene Francisco Dias, reconhecida como a primeira mulher quilombola do Brasil a alcançar esse título na área. A trajetória foi construída entre o trabalho, a formação acadêmica e a permanência dos vínculos com o território Kalunga.
Vercilene nasceu na região do Vão do Moleque, a 130 km de Cavalcante (GO), e é filha de lavradores semianalfabetos. Ainda na comunidade, aprendeu a ler para auxiliar os moradores. Depois, passou a ler e escrever cartas e documentos, experiência que despertou seu interesse pelas disputas territoriais da região.
Formação entre Goiás e Tocantins
Para continuar os estudos, ela saiu de casa em 1995 e foi morar com padrinhos em Tocantins. Mais tarde, viveu com uma família de fazendeiros no interior do estado. Ao retornar para Goiás, trabalhou como empregada doméstica para pagar a própria formação e decidiu cursar direito.
Em 2011, foi aprovada no vestibular da Universidade Federal de Goiás (UFG), por meio do UFG Inclui, programa de ação afirmativa destinado a estudantes quilombolas e indígenas. Em 2016, concluiu a graduação e iniciou o mestrado em Direito Agrário, também na UFG.
Na faculdade, a relação com a terra aprendida desde a infância entrou em contraste com a noção de propriedade apresentada nos livros. A questão orientou suas pesquisas sobre os conflitos territoriais e a regularização fundiária do território Kalunga. Ao fim do mestrado, ela foi aprovada em um processo seletivo para trabalhar em Brasília, em uma organização de assessoria jurídica.
Após duas tentativas de ingresso no doutorado e anos conciliando trabalho e estudos, Vercilene teve a tese aprovada pela banca da UnB. Para ela, a conquista também representa a possibilidade de inspirar outras jovens da comunidade.
“Eu queria mostrar para a sociedade que a gente era capaz de conseguir chegar naquele espaço também”, afirmou a advogada.
Vercilene diz que a formação acadêmica não rompeu sua identidade. “Eu nunca deixei de ser quem eu era: a Vercilene, quilombola, do território Kalunga”, declarou.


