Adesivos de bem-estar divulgados para aumentar a energia, melhorar o humor, favorecer a concentração e controlar o peso ainda não têm eficácia comprovada. Especialistas também afirmam que não está claro se muitos dos ingredientes atravessam a pele em quantidade suficiente para chegar à corrente sanguínea.
O mercado reúne dezenas de produtos, incluindo os chamados adesivos de dopamina. Eles não levam dopamina propriamente dita, mas substâncias apresentadas pelas marcas como precursoras desse neurotransmissor. As alegações, porém, frequentemente simplificam o funcionamento da dopamina, e alguns componentes podem nem ser absorvidos pelo organismo.
O que determina a absorção pela pele
A administração transdérmica pode liberar um medicamento de forma lenta e contínua, além de evitar a passagem pelo sistema digestivo e reduzir efeitos colaterais gastrointestinais, explica David Kroll, professor de farmacologia e toxicologia de produtos naturais da Universidade do Colorado Anschutz.
Para Nicole K. Brogden, professora de ciências farmacêuticas da Universidade de Iowa, o método pode ser útil quando o composto e sua formulação têm as características necessárias. A pele funciona como uma barreira formada por células e gorduras. Moléculas pequenas e solúveis em gordura tendem a atravessá-la com mais facilidade, e alguns produtos usam substâncias que favorecem essa passagem.
Esse mecanismo não é igual ao de cremes de uso tópico, geralmente formulados para agir na própria pele. Há medicamentos transdérmicos aprovados pela FDA, como os adesivos de nicotina para ajudar no abandono do cigarro e produtos destinados ao tratamento da doença de Parkinson, do transtorno do déficit de atenção com hiperatividade e da dor.
Igor Koturbash, professor e codiretor do Centro de Pesquisa de Suplementos Alimentares da Universidade de Ciências Médicas do Arkansas, afirma: “A administração transdérmica de medicamentos é uma ciência de verdade”. Ele ressalva que isso não significa que qualquer composto possa ser administrado com sucesso dessa maneira.
Vitaminas, plantas e precursores da dopamina
Poucos estudos avaliaram adesivos de bem-estar. A absorção pode variar conforme a marca, a fórmula, a quantidade de cada substância — nem sempre informada — e a presença de facilitadores de permeação.
Em um estudo com 44 pacientes acompanhados durante 12 meses após cirurgia bariátrica, usuários de adesivos multivitamínicos tiveram maior probabilidade de apresentar deficiência de vitamina D, vitamina B12, folato e ferritina do que aqueles que tomaram comprimidos.
As vitaminas do complexo B, comuns em produtos voltados à dopamina, à energia e ao controle de peso, provavelmente atravessam a pele com dificuldade por serem muito solúveis em água. Um estudo recente indicou que microagulhas capazes de perfurar a pele e depois se dissolver podem facilitar a passagem da vitamina B12.
A vitamina A pode permanecer nas camadas gordurosas da pele. A L-tirosina, por sua vez, é pequena o bastante para atravessar a barreira, mas o resultado depende da formulação. Mesmo quando absorvida, precisa passar por reações químicas antes de ser convertida em dopamina. Extratos vegetais, como o de chá-verde, são mais difíceis de analisar porque reúnem vários compostos.
A berberina pode ser absorvida pela pele, segundo Brogden. Em pele de animais, um estudo observou que microagulhas poderiam levar a substância ao organismo. Koturbash considera a versão transdérmica uma alternativa promissora à ingestão oral, mas diz que ainda são necessárias mais pesquisas.
Custos e possíveis riscos
A maioria dos especialistas considera prematuro concluir que os adesivos consigam transportar seus ingredientes até a corrente sanguínea. Também há poucas evidências de que os suplementos usados nesses produtos entreguem os efeitos prometidos pelas empresas.
Os riscos incluem reação alérgica, irritação da pele e interação com determinados medicamentos. Os produtos podem custar cerca de US$ 20 (R$ 104) a US$ 40 (R$ 208) por um suprimento mensal. Para Kroll, trata-se de uma forma cara de obter substâncias que podem ser tomadas por via oral.


