O Brasil registrou 40 mortes provocadas por alergias entre janeiro e junho de 2026, informou o Ministério da Saúde. Desde 2022, foram contabilizados 499 óbitos pela mesma causa. No Sistema Único de Saúde (SUS), os atendimentos relacionados a alergias passaram de 30,9 milhões em 2022 para 44,5 milhões no ano passado. Apenas na primeira metade de 2026, foram registrados 24 milhões.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 30% da população mundial tenha algum tipo de alergia atualmente. A previsão da entidade é que esse percentual chegue a 50% até 2050. Para Marina Takao, alergista e imunologista do Hospital das Clínicas da Unicamp, fatores como mudanças no estilo de vida, estresse e poluição podem desregular o sistema imunológico.
O que caracteriza uma reação grave
A alergia é uma resposta exagerada do sistema imunológico a substâncias que, em geral, são inofensivas, como alimentos, ácaros, pelos de animais ou medicamentos. Ela pode surgir na infância ou na vida adulta e está relacionada tanto à predisposição genética quanto ao estilo de vida e à exposição ambiental.
Entre os quadros mais frequentes estão rinite, asma, dermatite atópica e urticária. As alergias alimentares também são comuns. Leite de vaca, ovos, amendoim, castanhas ou nozes, trigo, soja, peixes, crustáceos e gergelim respondem por mais de 90% das reações provocadas por alimentos, conforme os estudos citados por especialistas.
A anafilaxia é a forma grave e imediata da alergia. Alimentos, medicamentos e venenos de insetos estão entre as principais causas. A reação pode atingir vários sistemas do organismo, provocar estreitamento das vias aéreas, inchaço da laringe, queda brusca da pressão arterial e choque.
Sem a administração imediata de adrenalina, a obstrução respiratória pode levar à morte em minutos, afirma Flavia Anísio, alergista e imunologista do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz). A medicação pode ser aplicada por meio de uma caneta pressionada contra a coxa. No Brasil, o produto não é fabricado e precisa ser importado. O custo chega a R$ 2 mil por duas canetas. No SUS, a adrenalina é usada em emergências na forma de solução injetável em ampola, aplicada por profissionais de saúde.
O caso de Erivelton Gomes
Erivelton Gomes, 34, morreu após comer siri e caranguejo durante uma viagem a Alagoas. Ele morava em Várzea Grande (MT) com o marido, Lucas Cerqueira, 27. Gomes sabia que era alérgico a camarão e já havia tido uma reação ao alimento, mas decidiu experimentar os crustáceos no quinto dia da viagem.
Depois de comer, reclamou de coceira no ouvido. Em seguida, teve dificuldade para respirar e ficou roxo. Cerqueira relatou que cerca de dez minutos se passaram entre o consumo e o início do agravamento. Gomes foi levado por uma ambulância a um hospital da região, e o marido estima que a morte ocorreu menos de uma hora depois.
Diagnóstico e prevenção
A investigação de uma alergia costuma começar após um episódio compatível com a reação. Os exames podem incluir coleta de sangue e teste cutâneo. Também existe o teste de provocação oral supervisionado, feito com doses progressivas do alérgeno em ambiente hospitalar equipado, para confirmar ou descartar a hipersensibilidade.
A principal recomendação é evitar completamente o alérgeno. Pessoas com alergia alimentar devem ler os rótulos, inclusive de produtos já conhecidos, porque a composição pode ser alterada pelo fabricante. Em refeições fora de casa, é necessário informar a equipe do estabelecimento e perguntar sobre o preparo, o uso compartilhado de óleo e utensílios e a separação dos alimentos. Em caso de dúvida, a orientação é não consumir o produto.


