RIBEIRÃO PRETO — A acessibilidade na Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto foi planejada para acompanhar o público desde a chegada até a participação nas atividades. Além de intérpretes de Língua Brasileira de Sinais (Libras), a organização ofereceu orientação para deslocamento, materiais sensoriais e informações sobre os espaços acessíveis.
A 25ª edição reuniu palestras, oficinas, bate-papos e experiências que exploraram o tato, a audição, o olfato e outros sentidos. A proposta, segundo Priscilla Altran, vice-presidente da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, é garantir que pessoas com deficiência possam acompanhar toda a programação, e não somente eventos direcionados a esse público.
Aprendizado pelo tato
Anderson, estudante do terceiro ano do ensino médio da Escola Estadual Conde Francisco Matarazzo, nasceu cego e está sendo alfabetizado. Durante a visita à feira, comprou dois livros em Braille: um sobre carros e outro sobre dinossauros.
Ele esteve acompanhado do professor de apoio Otton Omar Balthazar, que trabalha com o estudante desde o começo do ano. Os dois passam cerca de seis horas por dia revisando os conteúdos da escola regular. Anderson já aprendeu a escrever em Braille, mas ainda encontra dificuldade para reconhecer os pontos menores produzidos pela máquina.
Para desenvolver a sensibilidade das mãos, Otton usa peças maiores para formar letras. Na feira, também deu ao aluno um livro sensorial, com texturas. “Trabalho mais o sensorial porque, quanto mais ele tiver essa sensibilidade, melhor vai ser a leitura”, explicou o professor.
A circulação pelos espaços também faz parte do processo de autonomia. Na escola, Anderson é estimulado a identificar sozinho os caminhos até a sala de aula e o banheiro. Na Biblioteca Sinhá Junqueira, a equipe apresentou as rotas disponíveis, verificou se ele poderia usar as escadas e ofereceu o elevador.
Otton afirma que o apoio deve estar disponível sem substituir as escolhas do estudante. Para ele, guiar Anderson o tempo todo impediria o desenvolvimento da independência.
Comunicação em Libras
A consultora de acessibilidade Ingrid Loyo, de 24 anos, é surda e visitou a feira pela segunda vez. Ela trabalha na biblioteca do Senac, gosta de ler e considera o português sua segunda língua, enquanto Libras é a primeira língua de parte da comunidade surda.
Na edição deste ano, a presença de uma intérprete facilitou sua comunicação e o acompanhamento das atividades. Ingrid também participou como consultora e ajudou a divulgar a programação para a comunidade surda.
Intérpretes foram distribuídos por pontos específicos do evento e por atividades identificadas como acessíveis. No balcão de informações, o público surdo pôde consultar a programação, verificar quais atrações contavam com Libras e receber orientações para chegar aos espaços. Palestras e oficinas com interpretação foram sinalizadas no material de divulgação, incluindo a programação da Tenda Sesc Senac.
Durante a visita, Ingrid foi acompanhada por Pamela Cupaiuolo Tognon Oliveira, coordenadora da equipe de acessibilidade em Libras. Com esse suporte, conversou com expositores, pediu informações e acompanhou atividades ao longo do dia.
Entre as experiências esteve uma oficina de aromaterapia e óleos essenciais, que explorou o olfato. Ingrid também relatou interesse pelas oficinas práticas e afirmou que levou para casa o que aprendeu.
Estrutura e acolhimento
De acordo com Priscilla, as condições de acesso são discutidas na elaboração do projeto de cada edição. O planejamento considera rampas, banheiros acessíveis, passarelas e rotas de circulação pelo calçadão, que tem trechos com paralelepípedos.
A organização também trabalha com a chamada acessibilidade humanizada, relacionada à abordagem do público, ao acolhimento e à preparação das equipes. A presença de intérpretes se estende ao atendimento inicial e à circulação, para que visitantes surdos possam identificar as atividades, obter informações e participar da programação.


