ITAPECERICA — O porão de um casarão colonial no Hotel Fazenda Palestina, em Itapecerica, abriga um memorial dedicado às pessoas negras escravizadas que viveram e trabalharam na propriedade. O espaço conserva paredes de pedra, madeira e terra da antiga senzala e apresenta informações sobre a escravidão no município.
A Fazenda Palestina remonta ao período colonial e esteve ligada à exploração do ouro e, mais tarde, à atividade agropecuária. Atualmente transformada em empreendimento de turismo rural, mantém parte das estruturas antigas, incluindo o local onde pessoas escravizadas eram mantidas.
O memorial busca preservar essa história sem reduzir o espaço à arquitetura do casarão ou aos ciclos econômicos da fazenda. O material exposto aborda o trabalho forçado na mineração e na agricultura, a construção de templos religiosos e formas de resistência, como as fugas para quilombos.
Memória e resistência
Para a historiadora Erivelta Diniz, a antiga senzala representa um sistema que transformou pessoas em propriedades e submeteu homens, mulheres e crianças à violência, ao trabalho compulsório, à separação de famílias e a punições. “A existência desse espaço dentro de uma fazenda histórica ajuda a compreender que a escravidão não foi uma realidade distante ou restrita a grandes centros mineradores”, afirmou.
Erivelta também relaciona os efeitos desse período à cultura local. Segundo ela, a ancestralidade e a resistência permanecem no Reinado de Itapecerica, nos cantos, rituais, manifestações culturais e práticas religiosas que mantêm viva a memória das experiências do período escravista.
Documentos preservados em cartórios, no Fórum, em igrejas, nas atas do reinado, em arquivos e no Arquivo Público Mineiro ajudam a reconstruir essa trajetória. A historiadora cita livros de escrituras de compra e venda de pessoas escravizadas referentes às décadas de 1870 e 1880. Esses registros, disse, ajudam a dimensionar a violência institucionalizada daquele período.
Na parede da antiga senzala, o painel “Escravidão em Itapecerica” reúne informações sobre o sistema escravista, o trabalho compulsório, os quilombos e a importância das manifestações culturais negras. O conteúdo lembra que a escravidão no Brasil terminou oficialmente em 13 de maio de 1888, com a assinatura da Lei Áurea, depois de quase quatro séculos de existência.
A preservação do local permite discutir quem trabalhava na fazenda, em quais condições e quem se beneficiava daquela estrutura. O memorial também se relaciona ao Reinado, às irmandades, aos batuques e a outras manifestações de matriz africana presentes em Itapecerica.
O Memorial dos Escravizados pode ser visitado por hóspedes do Hotel Fazenda Palestina durante a estadia. Moradores e demais visitantes precisam fazer agendamento prévio com o hotel. O empreendimento mantém ainda a Trilha do Ouro, percurso que, segundo o próprio hotel, acompanha caminhos usados por pessoas escravizadas durante o período colonial.


