FRANKFURT — Uma exposição no Museu Städel reúne dez obras que mostram como Maria Madalena foi representada na arte ocidental ao longo do tempo. A mostra também examina a associação entre a personagem bíblica, o pecado sexual e diferentes ideias sobre as mulheres.
Intitulada Maria Madalena. Pecado. Oração. Amor, a exposição permanece em cartaz de 17 de setembro de 2026 a 17 de janeiro de 2027. O percurso parte da combinação histórica entre três figuras: a pecadora anônima, Maria da Betânia e a Maria Madalena citada nos relatos bíblicos.
O historiador da arte Bastian Eclercy, um dos curadores, resume a tradição em três imagens: “Uma é a pecadora anônima, outra é a Maria da Betânia e a terceira é a Maria Madalena bíblica, estritamente falando.”
Imagens de penitência e devoção
Entre os trabalhos está A Elevação de Santa Maria Madalena, xilogravura de Albrecht Dürer produzida entre c. 1504-05. A personagem aparece nua, carregada por seis anjos, em uma cena inspirada na Legenda Áurea, texto do século 13 escrito por Jacobus de Voragine. A obra narra que Maria teria buscado solidão no sul da França.
Em Madalena Penitente, de Guido Cagnacci, a personagem segura uma caveira, símbolo recorrente da brevidade da vida e da preparação da alma para encontrar Deus. A composição expressa a associação crescente entre Madalena e o pecado sexual, embora as escrituras não indiquem qual teria sido a transgressão da mulher pecadora não identificada.
Já Madalena Penitente em Meditação, de Georges de La Tour, recorre a espelhos e velas para tratar de tempo, mortalidade e autorreflexão. Para a professora de estudos cristãos Siobhan Jolley, a obra apresenta uma personagem mais interiorizada, sem depender de uma representação erótica ou decorativa.
Personagens misturadas
A confusão entre diferentes figuras aparece em Marta Repreende sua Vaidosa Irmã Maria Madalena, de Simon Vouet. A cena não está na Bíblia e mostra Madalena em um toucador, sendo repreendida por Marta por sua vaidade. A pintura incorpora a ideia de que ela seria irmã de Marta e Lázaro, embora a tradição também a tenha ligado à mulher que ungiu os pés de Jesus e a uma adúltera.
Em Maria Madalena no Sepulcro, de Giovanni Girolamo Savoldo, um pequeno vaso e o vestido vermelho ajudam a identificar a personagem. Jolley observa que o jarro de alabastro é associado à mulher pecadora que ungiu os pés de Jesus, embora também seja possível interpretar a figura como Maria, mãe de Cristo.
A mostra inclui ainda Jesus Aparece a Maria Madalena, de Lavinia Fontana, uma das primeiras representações da santa feitas por uma artista mulher. A pintura retoma o episódio em que Madalena confunde Jesus com um jardineiro.
Releituras modernas
As obras mais recentes ampliam a discussão sobre reputação, aparência e autonomia. Em Cristo e a Pecadora, de Max Beckmann, a passagem da mulher ameaçada de apedrejamento é relacionada a Madalena, em uma interpretação menos sexualizada e mais tolerante.
Na pintura Naomi Campbell como Maria Madalena, Marlene Dumas usa a imagem da modelo para discutir celebridade, reputação e os critérios raciais associados à beleza. Como há poucas descrições físicas de Madalena na Bíblia, a artista contrapõe a representação frequente da santa como uma mulher jovem e branca.
A obra O Desafio, de Nieves González, mantém elementos tradicionais, como o cabelo loiro avermelhado, as roupas vermelhas e a caveira, mas coloca a personagem em um casaco estofado. A figura encara o observador com autoconfiança, em uma composição relacionada a domínio e autonomia.
A exposição também apresenta A Dor de Madalena sobre o Corpo de Cristo, de Arnold Böcklin, na qual Madalena lamenta intensamente a morte de Jesus. Para Eclercy, ela assume, nessa representação, uma função associada à Virgem Maria ao expressar o luto.
A seleção sugere que as imagens de Madalena revelam tanto as transformações da personagem quanto as expectativas de diferentes épocas sobre as mulheres.


