A Organização Meteorológica Mundial (OMM) alertou nesta quinta-feira (17) que o ciclo global da água está mais instável, com alternância entre escassez e excesso. O relatório Estado Global dos Recursos Hídricos indica que 2025 ficou entre os anos de menor vazão dos rios do planeta nos últimos 35 anos.
Mais de um terço das bacias hidrográficas registrou volume inferior à média histórica. A quantidade de água transportada pelos rios globais também esteve entre as três menores do período analisado. Pelo sétimo ano consecutivo, as bacias em condições normais foram minoria: 36% ficaram dentro da média, enquanto 36% tiveram vazões abaixo do padrão e 21% apresentaram níveis superiores.
Reservas subterrâneas e geleiras
O armazenamento continental de água, que inclui aquíferos, lagos, solos, vegetação, neve e gelo, mantém uma trajetória de queda há mais de uma década. A OMM relaciona a redução das reservas às mudanças climáticas provocadas pela atividade humana, ao aumento da demanda associado ao crescimento populacional e à variabilidade natural do clima.
As águas subterrâneas estão entre os pontos de maior preocupação. Em 2025, a maior parte dos poços acompanhados no mundo registrou níveis inferiores à média de longo prazo. A Europa Central e Oriental esteve entre as áreas com maiores déficits em relação ao período de 2014 a 2024, enquanto muitos aquíferos do norte europeu ficaram acima da média histórica.
As geleiras também perderam massa pelo quarto período consecutivo em todas as regiões monitoradas. De 2023 a 2025, a perda acumulada chegou a cerca de 1.400 gigatoneladas de água. Conforme a OMM, esse volume seria suficiente para preencher aproximadamente 560 milhões de piscinas olímpicas ou corresponderia a cerca de um terço da retirada anual de água doce no mundo.
A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, afirmou que as reservas de resposta mais lenta, como geleiras e águas subterrâneas, historicamente ajudavam a impedir que uma estação seca evoluísse rapidamente para uma crise hídrica. “Estamos consumindo nossas reservas”, disse.
Risco associado ao El Niño
O relatório também registra situações de excesso de água, principalmente em áreas do sul da Ásia. Para a organização, a combinação de escassez em algumas regiões e abundância em outras revela um ciclo hidrológico mais irregular e difícil de prever.
Saulo chamou atenção para o atual episódio de El Niño, que pode alcançar a maior intensidade desde o começo das séries comparáveis de registros, há cerca de quatro décadas. O fenômeno é a fase quente de um ciclo natural que ocorre de dois a sete anos e envolve temperaturas acima da média na superfície do Pacífico, com efeitos sobre os ventos e as chuvas.
A secretária-geral advertiu que o fortalecimento do fenômeno pode elevar simultaneamente os riscos de seca e de inundação, dependendo da região. A OMM classificou 2025 como um dos três anos de menor vazão dos rios no intervalo de 35 anos.
A entidade defendeu mais coleta, padronização e compartilhamento de dados, além da ampliação dos sistemas de alerta. Segundo Saulo, a água que abastece uma bacia pode ter origem em outro país, e eventos ligados a geleiras podem atingir territórios diferentes, como no caso mencionado pela organização envolvendo China e Nepal.


