A redução das emissões de metano será discutida a partir deste domingo (20), durante a Semana do Clima, em Nova York, realizada paralelamente à Assembleia Geral da ONU. O gás passou a ser tratado como uma frente necessária de combate ao aquecimento global diante da possibilidade de o planeta ultrapassar o limite de 1,5°C previsto no Acordo de Paris.
Em agosto, o aquecimento global chegou a 1,65°C, o maior nível registrado para um mês. As metas atuais dos países signatários apontam para um aumento de 1,8°C até o fim do século. Mantido o nível atual de emissões, porém, a elevação poderia alcançar 2,8°C. Os cientistas usam o termo “overshoot” para descrever o período em que a temperatura fica acima de 1,5°C.
Risco para ecossistemas
O climatologista Carlos Nobre afirma que a passagem de 2°C pode levar a pontos de não retorno, incluindo a Amazônia. Um dos possíveis efeitos é a transformação do bioma em uma formação semelhante à savana. O último relatório do Pnuma, o programa das Nações Unidas para o meio ambiente, também alerta que a queda posterior dos termômetros não reverteria danos em florestas tropicais, recifes de corais, montanhas polares e outros sistemas vulneráveis.
“É essencial zerar a emissão de metano até 2040”, disse Nobre. Para ele, essa medida poderia permitir, no futuro, o retorno ao aquecimento de 1,5°C. O climatologista também relaciona a falta de redução das emissões à extinção de espécies e afirma que a Amazônia está entre os sistemas sob maior risco.
O metano responde por um terço do aumento global da temperatura. Cerca de 60% das emissões atuais são provocadas por atividades humanas: 40% vêm da agropecuária, 35% da produção, do transporte e do consumo de combustíveis fósseis, e 20% do manejo de resíduos orgânicos.
Energia, resíduos e pecuária
O gás, identificado pela fórmula CH₄, permanece menos tempo na atmosfera que o dióxido de carbono. Em um período de 20 anos, uma molécula de metano aquece 86 vezes mais que uma molécula de CO₂. Como sua permanência atmosférica é de 12 anos, a diferença cai para 26 ou 29 vezes quando a avaliação considera 100 anos, explica Henrique Bezerra, diretor para a América Latina da Global Methane Hub.
A Agência Internacional de Energia estima que 75% das emissões de metano da indústria petrolífera podem ser reduzidas a custo negativo, o que significa possibilidade de lucro para as empresas. Entre as alternativas estão o fim ou o aprimoramento de processos poluentes, a prevenção de vazamentos e o reaproveitamento do gás.
No Brasil, uma regulamentação sobre o tema está em consulta pública e pode ser publicada até o fim deste ano. Nos resíduos orgânicos, metade do material enviado aos aterros sanitários poderia ser destinada à compostagem. Florianópolis é citada como a cidade com a maior taxa de compostagem da América Latina. Há ainda aterros que capturam metano para produzir biogás, incluído na Lei do Combustível do Futuro, além de um Plano Nacional de Resíduos Orgânicos.
Os resíduos representam 16% das emissões brasileiras de metano. A pecuária responde por 76%. Nesse setor, uma das medidas apontadas é elevar a produtividade, reduzindo o período em que o gado permanece no pasto e produz metano por fermentação entérica.
A pecuária regenerativa, que combina criação mais rápida e ganhos ambientais nas propriedades, também é apresentada como alternativa. Nobre defende políticas para eliminar as emissões de metano, inclusive as associadas a combustíveis fósseis e ao gás natural.


