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Reggae moldou festas, dança e memória cultural de São Luís

Radiolas, apelidos para músicas e a dança agarradinha ajudaram a formar a identidade regueira da capital maranhense.

O reggae foi incorporado à vida cultural da capital maranhense por meio de festas, programas de rádio, grandes sistemas de som e costumes adotados pelo público. São Luís, que completa 414 anos nesta terça-feira (8), é conhecida como “Jamaica Brasileira” e recebeu, desde 2023, o título oficial de Capital Nacional do Reggae.

A presença do gênero nos bairros populares começou a se consolidar no fim dos anos 1970. Discos jamaicanos entraram na programação das danceterias e alcançaram principalmente jovens negros das periferias. No início, as músicas eram inseridas entre sequências de outros ritmos e chegaram a ser chamadas de “música estrangeira lenta”, antes que o público conhecesse o nome reggae.

Uma identidade construída nas festas

A forma de dançar foi uma das adaptações feitas pelos maranhenses. Como os salões já eram ocupados por ritmos dançados em dupla, como lambada, forró, merengue e bolero, os casais mantiveram a proximidade quando o reggae tocava. A dança “agarradinha” se transformou em uma marca da cultura regueira local.

Em 2021, o governo do Maranhão reconheceu esse modo de dançar como Patrimônio Cultural Imaterial do estado. A juventude negra também associou o gênero a comportamentos e formas de vestir, mesmo sem compreender, em muitos casos, as letras cantadas em inglês. Karla Freire afirma que essa apropriação produziu um sentimento de pertencimento.

Nos anos 1980, a expansão dos programas de rádio especializados aproximou ainda mais as festas, as radiolas e o público. Foi nesse circuito que ganhou força o nome “Jamaica Brasileira”, usado para expressar a presença da música jamaicana na rotina da cidade.

De onde veio o apelido

Uma das memórias sobre a origem da expressão está em um depoimento de Fauzi Beydoun, cantor da banda Tribo de Jah e comunicador, concedido à pesquisadora Maria do Carmo Lima Morais. O relato integra o artigo “A invenção da expressão ‘Jamaica Brasileira’”, publicado em 2008 na revista Cambiassu, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

Fauzi relacionou o apelido às semelhanças que identificava entre clubes de São Luís e a Jamaica, à presença da cultura negra e à maneira como os maranhenses receberam o reggae. Na avaliação de Maria do Carmo, os meios de comunicação foram decisivos para espalhar essa imagem.

A denominação também encontrou oposição. O antropólogo e professor da UFMA Carlos Benedito Rodrigues da Silva afirma que parte da elite preferia a referência a “Atenas Brasileira”, associada à tradição literária da cidade. “A Atenas brasileira é algo que remete à Europa e ser a Jamaica brasileira é algo que remete à África”, disse.

Radiolas, exclusividade e os “melôs”

Os primeiros discos chegaram ao Maranhão por caminhos diferentes, de acordo com os relatos reunidos por Karla Freire. Uma versão menciona marinheiros que teriam trocado vinis por comida e bebida. Outra aponta a circulação de discos vindos do Pará e a atuação do DJ José Ribamar da Conceição Macedo, conhecido como Riba Macedo.

Proprietários de radiolas o reconhecem como um dos pioneiros na difusão do gênero. Riba teria conhecido o vendedor Carlos Santos, que passou a incluir discos de reggae em seu repertório.

Originalmente, a radiola combinava rádio e vitrola. Com a popularização do reggae no Maranhão, passou a reunir grandes conjuntos de caixas de som. A competição entre os proprietários envolvia potência e exclusividade: alguns raspavam os selos dos discos para impedir que concorrentes identificassem gravações e cantores.

O projeto de lei que propôs, em 2020, o título de Capital Nacional do Reggae citava a existência de mais de 200 radiolas na cidade. Esses equipamentos ajudaram a fortalecer as festas, enquanto os DJs selecionavam músicas, davam recados, anunciavam eventos e comentavam as novidades do circuito.

Os apelidos dados às gravações também se tornaram parte da linguagem regueira. DJs e apresentadores criavam nomes baseados em trechos que pareciam formar palavras em português. “White Witch”, de Andrea True Connection, por exemplo, ficou conhecida como “melô do caranguejo”, porque parte do refrão soava para o público como “olha o caranguejo”. Termos como “pedra” e “pedrada” passaram a identificar músicas que provocavam forte reação nas festas.

Preconceito e reconhecimento

A consolidação do reggae não eliminou o preconceito social e racial enfrentado pelas festas e por seus frequentadores. Ao examinar jornais antigos, Karla Freire encontrou uma cobertura frequentemente ligada a ocorrências policiais, enquanto os espaços de lazer da população negra e pobre eram pouco apresentados como locais de cultura.

Entre as décadas de 1980 e 1990, o gênero se expandiu e passou a integrar a rotina de uma parcela ampla da população. A partir dos anos 1990, a presença de universitários, artistas e integrantes da classe média em locais como o Espaço Aberto diversificou o público.

Entre o fim daquela década e o começo dos anos 2000, a cobertura jornalística passou a destacar também a dimensão cultural do movimento. O Espaço Aberto foi inaugurado como o segundo museu dedicado ao reggae no mundo e o primeiro fora da Jamaica. Seu acervo reúne discos raros, vídeos, fotografias históricas e registros da moda regueira ao longo do tempo.

Texto produzido pela Redação Caderno Atual com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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