A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou dois registros de medicamentos genéricos com liraglutida, substância usada no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. As autorizações foram concedidas à farmacêutica brasileira EMS.
Os produtos serão soluções injetáveis de aplicação subcutânea, com concentração de 6 mg/mL. Um dos registros está relacionado ao Olire, da EMS, indicado para obesidade. O outro tem como medicamento matriz o Lirux, voltado ao tratamento do diabetes tipo 2.
A aprovação não significa que os genéricos já estejam disponíveis. A empresa ainda deverá definir quando fará o lançamento e quais serão os preços de venda.
Relação com Olire e Lirux
Olire e Lirux foram aprovados pela Anvisa em dezembro de 2024 e começaram a chegar às farmácias em agosto de 2025. A nova autorização muda a categoria regulatória: os produtos serão comercializados como genéricos, identificados pelo nome liraglutida e sem marca própria.
Embora tenham o mesmo princípio ativo e a mesma concentração, os registros correspondem a indicações diferentes. Um segue o processo do Olire, destinado ao controle da obesidade; o outro se baseia no Lirux, indicado para pessoas com diabetes tipo 2. A mesma molécula pode ser usada em tratamentos distintos, com doses e indicações específicas aprovadas pela agência.
A liraglutida também está presente no Saxenda, para controle de peso, e no Victoza, usado contra o diabetes tipo 2. Os dois medicamentos são da Novo Nordisk.
As embalagens terão apresentações variadas. Conforme o produto, poderão conter um, dois, três, cinco ou dez carpules de 3 mL. O carpule é o reservatório que armazena o medicamento e é encaixado na caneta aplicadora.
O significado de “clone”
Os registros publicados no Diário Oficial classificam os produtos como “genérico — registro de medicamento — clone”. Na regulamentação da Anvisa, clone é um procedimento simplificado para medicamentos que mantêm a mesma composição, fabricante, linha de produção e documentação técnica e clínica de outro produto já analisado integralmente pela agência.
Nesse processo, as alterações podem envolver o nome do produto, a rotulagem e as informações legais da embalagem e da bula. Os medicamentos que serviram de matriz para os novos registros são o Olire e o Lirux.
A classificação como genérico também exige que o produto tenha o mesmo princípio ativo, concentração, forma farmacêutica, via de administração e indicação do medicamento de referência. Além disso, é necessário demonstrar equivalência para permitir a substituição.
Preço ainda depende da empresa
O registro não informa o valor das novas canetas. No Brasil, os preços máximos são regulados pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). Pela regra atual, o Preço Fábrica de um genérico dessa categoria não pode superar 65% do valor autorizado para o medicamento de referência.
Esse limite não determina necessariamente um desconto de 35% ao consumidor. O preço pago na farmácia pode variar conforme impostos, descontos dos laboratórios e políticas comerciais das redes. As farmácias também podem vender os produtos por valores inferiores ao teto definido pela CMED.
Quando lançou o Olire e o Lirux em 2025, a EMS anunciou preços sugeridos a partir de R$ 307,26 por caneta.
Ação da liraglutida e exigência de receita
A liraglutida faz parte dos agonistas do receptor de GLP-1, grupo que também inclui a semaglutida, presente em Ozempic e Wegovy. As duas substâncias, porém, são diferentes.
O GLP-1 é um hormônio produzido pelo intestino após a alimentação e participa do controle da glicose e do apetite. A liraglutida reproduz parte dessa ação: no diabetes, estimula a liberação de insulina quando a glicose está alta e contribui para o controle do açúcar no sangue.
A substância também age em áreas cerebrais ligadas à fome e à saciedade e torna mais lento o esvaziamento do estômago. Com isso, reduz a ingestão de alimentos e auxilia no controle do peso. Diferentemente de medicamentos mais recentes à base de semaglutida e tirzepatida, a liraglutida é administrada diariamente; essas outras opções têm apresentações de uso semanal.
Desde 2025, os agonistas de GLP-1 só podem ser vendidos no Brasil com receita médica, que deve ser retida pela farmácia. Em fevereiro deste ano, a Anvisa alertou novamente para riscos do uso inadequado desses medicamentos, incluindo a pancreatite aguda, inflamação do pâncreas descrita entre as possíveis reações adversas nas bulas.
A chegada dos genéricos dependerá, agora, da definição da EMS sobre o lançamento e os preços de comercialização.


