O custo contínuo do tratamento é um dos fatores que podem definir a escolha entre os medicamentos injetáveis usados contra o diabetes tipo 2 e a obesidade. A endocrinologista Bruna Marinho, coordenadora do Serviço de Endocrinologia e Metabologia do Hospital Felício Rocho, em Ribeirão Preto, afirma que a decisão deve considerar o diagnóstico, a necessidade de perda de peso, as doenças associadas, os estudos disponíveis e a possibilidade de manter a terapia por longos períodos.
Obesidade e diabetes são doenças crônicas e o tratamento farmacológico frequentemente precisa continuar por meses ou anos. Por isso, um remédio com maior potencial de perda de peso, como o Mounjaro, pode não ser a melhor opção se o paciente não conseguir arcar com o custo de forma contínua. O produto, da Eli Lilly, é a única tirzepatida aprovada pela Anvisa.
Semaglutida ganha concorrentes
A principal expansão ocorreu no mercado da semaglutida, conhecida pelas marcas Ozempic e Wegovy, da Novo Nordisk. A exclusividade da empresa terminou em 20 de março, quando a queda da patente abriu caminho para registros de outras farmacêuticas.
Em 26 de maio, a Anvisa aprovou o Ozivy, da EMS, primeiro medicamento à base de semaglutida registrado depois do fim da patente. O produto é indicado para adultos com diabetes tipo 2 insuficientemente controlado. Em 10 de julho, passou a integrar a Lista de Medicamentos de Referência da agência.
Outros cinco registros foram aprovados em 29 de julho: Owozy, da Ávita Care; Seemasun, da Sun Farmacêutica; Zempneo, da Brainfarma; Semavy, da Cosmed; e Orsema, da Ranbaxy. As indicações informadas também são para adultos com diabetes tipo 2 insuficientemente controlado.
Em 17 de agosto, a EMS conseguiu o registro do primeiro genérico de semaglutida do país. O produto não terá nome comercial, conforme determina a legislação. Na mesma data, a Germed obteve o registro do Semaclique, classificado como similar. Em 24 de agosto, a empresa recebeu a aprovação de um segundo genérico da substância. Já em 31 de agosto, a EMS teve aprovado o Yluméc, um similar na modalidade clone.
Ao todo, foram aprovadas 12 canetas em 2026 no Brasil: dez de semaglutida e duas de liraglutida. A lista de semaglutidas inclui Ozivy, Semavy, Owozy, Zempneo, Seemasun, Orsema, os dois genéricos sem nome comercial, Semaclique e Yluméc.
A existência de várias marcas não torna os produtos automaticamente intercambiáveis. Similares são identificados por marca ou nome comercial e, diferentemente dos genéricos, nem todos podem ser trocados pelo medicamento de referência.
Preços e chegada às farmácias
O Ozempic é vendido por R$ 975 nas versões de 0,25 mg e 0,5 mg pelo programa Preço NovoDia no comércio eletrônico. A apresentação de 1 mg custa R$ 999. O Ozivy chegou às farmácias com valores anunciados de R$ 452 a R$ 498 por caneta.
A legislação estabelece que os genéricos tenham preço no mínimo 35% inferior ao do medicamento de referência. Considerando os valores de lançamento do Ozivy, a estimativa para os genéricos fica entre R$ 293 e R$ 323.
Os demais produtos aprovados ainda dependem de etapas antes de serem vendidos nas farmácias, incluindo a definição de preços pela CMED, a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos.
Antes dos registros de 2026, a Eurofarma já comercializava, desde outubro de 2025, o Extensior e o Poviztra, em parceria com a Novo Nordisk. Segundo a farmacêutica, o Extensior é idêntico ao Ozempic e o Poviztra ao Wegovy.
Liraglutida tem aplicação diária
A liraglutida também recebeu dois novos genéricos neste ano. Na última terça-feira (8), a Anvisa aprovou produtos da EMS destinados ao tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Eles têm como matriz o Olire e o Linux, medicamentos da própria empresa que começaram a chegar às farmácias no fim de 2025.
O Olire é indicado para obesidade, enquanto o Linux é destinado ao diabetes tipo 2. Os dois são comercializados em canetas de 6 mg e anunciados a partir de R$ 84 em grandes redes de farmácias na internet. Pela legislação, os genéricos devem custar no mínimo 35% menos que os medicamentos de referência.
Uma diferença prática é a frequência de aplicação. Semaglutida e tirzepatida são administradas, em geral, uma vez por semana; a liraglutida costuma exigir uso diário. Para o endocrinologista Júlio Américo Batatinha, doutorando no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, essa frequência reduziu o espaço da liraglutida diante de medicamentos mais recentes.
“A liraglutida tem um efeito intermediário na perda de peso e também tem um efeito bom no controle do diabetes”, afirma Batatinha. Segundo ele, a semaglutida apresenta efeito mais interessante na perda de peso e pode ser aplicada uma vez por semana, mas pode causar um pouco mais de efeitos colaterais que a tirzepatida.
Avaliação médica
As substâncias dessa classe atuam no sistema gastrointestinal e podem provocar náusea, dor abdominal, refluxo, constipação e outras alterações do hábito intestinal. Alana Rocha, professora de endocrinologia da Afya Educação Médica Vitória, afirma que as doenças associadas e a tolerabilidade são consideradas quando se avalia a troca de tratamento.
A semaglutida imita a ação do GLP-1, hormônio que participa do controle da glicose e da saciedade. A tirzepatida atua sobre o GLP-1 e o GIP, sendo classificada como agonista duplo. Como a patente da tirzepatida continua vigente no Brasil, o Mounjaro permanece como a única opção aprovada pela Anvisa com esse princípio ativo.
A dulaglutida, cujo principal medicamento de referência é o Trulicity, da Eli Lilly, continua protegida por patente e não tem versões genéricas ou similares no país. O produto é aprovado para o tratamento do diabetes tipo 2. Segundo Batatinha, a substância tem menor potência para redução de peso que a semaglutida e a tirzepatida.


